Teoria da relatividade revisitada

Dá para relativizar o conceito de privacidade e dividir quarto com dezenas de pessoas.

Dá para relativizar o conceito de higiene e tomar banho com lencinhos umidecidos.

Dá para relativizar o conceito de liberdade e se esconder no hotel antes de escurecer.

Agora não dá. Para relativizar. O conceito de um templo. Com MILHARES de ratos.

Karni Mata, fica para a próxima.

Tá olhando o que?

Tá olhando o que? (Montagem sobre foto de Enric Bach / Creative Commons)


Também sou geek

Minha Índia em alfinetes!

Minha Índia em alfinetes!

Confesso que geralmente só lembro como a tecnologia é útil na hora do aperto. Aí é xingar o modem que não funciona. Esculhambar o email que não abre. Jogar na parede o telefone sem sinal.

Só que hoje estou aqui para agradecer publicamente os srs. Page e Brin (ainda meio magoada com o assassinato do Google Reader, confesso). O Google Maps Engine Lite, lançado este ano, está salvando a pátria sabática. Achei o esquema especialmente útil quando você tem muitos destinos e não sabe exatamente a proximidade e a direção de cada um deles.

Sabe o Google Maps? Agora pensa um Google Maps que você pode salvar seus destinos com alfinetes e importar dados, criando formas, camadas, linhas com cores variadas, enfim. Um mapa inteirinho para você rabiscar e desrabiscar como quiser, de grátis.

Fim.


Antes tarde

Desde cedo já sabendo que a neta ia dar trabalho, né vó?

Desde cedo já sabendo que a neta ia dar trabalho, né vó?

Conversei com a minha avó ontem pela primeira vez desde que bati o martelo sobre a viagem. “Se tivesse ido antes, de repente não precisava disso agora”, suspirou ela, naquele tom meio contrariado de quem já estava mais para casamento e bisnetos. Naquele tom de quem preferia uns Estados Unidos lá atrás a uma Ásia agora.

Minha avó sabe bem da minha cisma com morar fora. Quando era pequena, estudava os livros de inglês das minhas primas esperando me comunicar quando chegasse a hora. Mandava cartas para a Alemanha e para a Rússia querendo saber como era a vida no além-Fernandópolis.

Insisti para fazer intercâmbio nos Estados Unidos quando era adolescente. Acharam melhor não. Anos mais tarde, ficou decidido que eu não deveria interromper o ritmo tradicional do curso de jornalismo para tentar intercâmbio entre universidades. Quando me formei, não tinha um centavo.

Mas está tudo certo. Sinto que foi o tempo necessário para maturar as ideias. Para ter aquela sensação boa de conquista pela própria motivação. Para desenvolver um olhar menos afobado e mais transformador. Fica tranquila, vó, tudo tem seu tempo.


Amo voar, gente

Falei aqui esses dias que queria viajar por terra e ironizei os aeroportos, né? Pois bem, que o castigo veio a jato.

Minha jornada pela Índia começa na região dos Himalaias. Depois de alguns dias em Delhi, vou para o extremo norte do país em direção a Leh, capital da região do Ladakh, que dizem ser o Tibet indiano. Tinha ouvido falar de uma estrada de tirar o fôlego que chega até lá saindo de Manali, uma estação turística pop no norte da Índia. Estrada cênica? Opa, aqui mesmo!

Fila indiana (literalmente) na beira do despenhadeiro.  (Jace / Creative Commons)

Fila indiana (literalmente) na beira do despenhadeiro. (Jace / Creative Commons)

Pesquisa vai, pesquisa vem, descubro que o título de estrada superlinda vem associado ao de superperigosa. Na verdade, ela passa a maior parte do ano fechada por causa do mau tempo (que começa justamente em outubro). Além disso, é uma minhoquinha estreita que vai cortando montanhas altíssimas, e se algum carro quebra ou tem acidente, bom, meu amigo, esteja pronto para acampar na estrada e perder dois dias de viagem.

Você pode perguntar: ué, cadê o espírito aventureiro? Minha parca experiência indica que só os perrengues totalmente imprevisíveis estão de ótimo tamanho para a coleção. Já fiquei presa em uma vilinha do interior do Peru por causa de estrada ruim, e depois de uma tentativa frustrada de chegar a Machu Picchu e de quase rolar Andes abaixo com um desabamento, só digo que beijei o chão de Cuzco quando consegui voltar sã e salva.

Abro o Skyscanner e vejo que tem um vôo de hora e pouco entre Delhi e Leh. Aeroporto lindo, também te amo, esquece tudo aquilo lá <3


Coragem

“Nossa, como você é corajosa” é das frases mais ouvidas dos últimos tempos.

Acho graça, porque uma coisa que eu definitivamente não sou é corajosa. Tenho medo de sangue, de esportes radicais, de bandido, de rato, da morte. Na verdade, o maior ato de coragem, se é que houve algum, foi sair do comodismo e lidar com a opinião das pessoas.

Desde que decidi viajar, não passei por momentos de frio na barriga que antecedem uma atitude corajosa. Nunca me perguntei: “Ai, será?”. Tenho a tese que as pessoas veem risco não pela possibilidade de perigo real, e sim por temerem sair da zona de conforto para conviver com o que não conhecem (até porque o Brasil está longe de ser a tranquilidade em forma de país).

Seria então por ir sozinha? Também não consigo ver a coragem aí. A paz de estar consigo mesmo não é ato de bravura, e sim uma concepção de vida. Sempre achei que estar com outras pessoas é uma soma que devemos buscar, e não pré-condição de sobrevivência ou de felicidade.

Sinceramente? Vejo muito mais coragem nas pessoas que decidem se casar e firmar um compromisso para a vida toda nesse mundo tão capenga de amor. Nas pessoas que decidem ter filhos para criá-los e educá-los nessa realidade cada dia mas complicada.

O resto, não tem nada de coragem não, só o curso da vida mesmo.


RTW? No, thanks

Viajar é se deslocar. E infelizmente, o direito de ir e vir não é tão livre quanto pregam as democracias mundiais. O jeito, minha gente, é  dar uma boa olhada no que o mercado oferece.

A primeira solução que me ocorreu foi o tal bilhete RTW, Round The World para os não iniciados. Empresas aéreas fizeram alianças para materializar o fetiche dos aventureiros, oferecendo tíquetes sequenciais para uma volta ao mundo completa. As vantagens alardeadas são a possibilidade de deixar tudo esquematizado antes de sair de casa e economias significativas no final.

Eu bem queria escrever um post funcional sobre esse esquema, mas olha, não deu não. Mal comecei a simular e já fiquei afogada no meio de tantas regras. Ai gente, peraí, o que eles vendem mesmo? Deixar tudo esquematizado? Ih, mas era isso mesmo que eu não queria. Ok, existe uma certa flexibilidade para alterar datas, mas sempre tem regras/taxas para mudar os destinos.

No meu caso tinha outro fator importante, chamado milhas acumuladas. Sou dessas que participam de todos os programas possíveis para juntar pontos em companhias aéreas. Somando cartão de crédito, posto de gasolina, loja de roupa, loja de livros, loja de cosméticos e umas viagens por aí, estava com mais de 50 mil milhas em meados deste ano. Opa, justo a conta para emitir um bilhete só de ida para Delhi.

Também pesou a vontade de viajar por terra sempre que possível. Tenho essa coisa que um país se revela melhor quando topamos seguir o fluxo sem muita frescura. E aquela sensação que aeroportos são sempre uma tentativa de padronizar o mundo. Not this time, thanks.

Hong Kong? Chicago? Berlim? Sei lá, tudo meio igual. (Nicola / Creative Commons)

Hong Kong? Chicago? Berlim? Sei lá, tudo meio igual. (Nicola / Creative Commons)


Mochilagem de luxo

Sabe aquela imagem de que mochileiro é aquele povo meio sem eira nem beira que fica zanzando por aí?

Sou rico! (Qole Pejorian / Creative Commons)

Sou rico! (Qole Pejorian / Creative Commons)

Esquece. Porque olha, é um investimento viu. Estava repassando as recentes aquisições e o que ainda precisa ser comprado e confesso que os valores ficaram longe da ideia de que para viajar basta ~espírito aventureiro~.

Imagina que você vai carregar seu guarda roupa nas costas por um ano. Ele tem que ser leve, funcional, resistente. E o mercado dessa parafernalha tecnológica é tão sedutor quanto extorsivo aos pobres bolsos andarilhos.

Calça anti-UV que vira short? R$ 180. Meia de lã de merino (?) que evita bolhas? R$ 78 o par. Mochilão resistente com milhões de compartimentos? R$ 600. Bota impermeável com sistema anti-fatigue? R$ 450. Casaco corta vento e corta chuva com capuz estruturado? R$ 300. Conjunto de segunda pele térmica com íons de prata que evitam odores indesejáveis pelo uso contínuo? R$ 220.

Quando fechar toda a bagagem, divido por aqui e aproveito para abrir um crowdfunding. Enquanto isso, eis o link do ótimo post do E se fôssemos para, que me guiou lindamente nessa etapa do que levar. O pessoal já está há meses na estrada e sabe direitinho o que funciona e o que não funciona, coisa maravilhosa.

****

p.s.: tinha falado em um post anterior que não conhecia loja de apetrechos para mochileiros em Brasília. Pois achei a Ibiti  (311 norte, subsolo do Bloco E). Tem muita coisa bacana, mas os preços, bom, são esses aí de cima.


Por que outubro?

Ninguém entendeu muito quando marquei o começo da epopeia para outubro, um mês normal para nós brasileiros. Mas como tudo na viagem, isso também tinha sua razão de ser.

Primeiro veio o clima. A melhor época para visitar a Índia, nosso ponto de partida, é entre outubro e janeiro. É um período mais fresco que chega logo após as monções, fenômeno que conhecemos bem pela televisão. As chuvas caem forte entre junho e setembro, deixando rastros de inundações e caos em várias partes do país. Também percebi ser prudente evitar a época entre março e maio, quando não é raro os termômetros marcarem 45 graus (sorry, Rio).

O segundo quesito foi cultural. Claro que a Índia tem festivais o ano inteiro, mas percebi que havia uma concentração interessante nesse período. Logo na minha chegada a Delhi, em meados de outubro, tem o Dussehra. Essa festa é super popular e ganha nomes diferentes em outras partes do país. Resumidamente, os indianos comemoram a vitória do bem sobre o mal.

Diwali em Amritsar (Punjab), onde devo estar neste ano (Gunmeet Singh / Creative Commons)

Diwali em Amritsar (Punjab), onde devo estar neste ano (Gunmeet Singh / Creative Commons)

No começo de novembro tem o Diwali, o Festival das Luzes. Mais uma vez, as divindades são o foco das comemorações, turbinadas com fogos de artifício, procissões e iluminação especial nos prédios tradicionais.

Saindo do campo religioso, em meados de novembro tem a Feira de Pushkar. Se na maior parte do ano essa pequena cidade do Rajastão atrai fieis para visitar um dos raros templos dedicados ao deus Brahma, na época da feira ela atrai milhares de comerciantes interessados em negociar camelos e gado, algo que lembra remotamente nossas feiras agropecuárias. Só adiciona aí umas toneladas de exotismo.

Infelizmente, o Holi vai ter que ficar para a próxima. Espécie de Carmaval dos indianos, o Festival das Cores acontece em março celebrando a chegada da primavera. Sempre foi um dos meus preferidos pelas imagens lindas que chegam de lá, com o povo na rua coberto de pó colorido e de tinta dos pés à cabeça. O festival se popularizou tanto pelo mundo que já soube de pelo menos duas versões em São Paulo apenas neste ano.

Como não amar esse país festeiro?


Finanças e a arte de ser conservadora

(Kevin Dooley / Creative Commons)

(Kevin Dooley / Creative Commons)

Todos querem saber como vou me manter durante a viagem. Juro que queria apresentar tabelas, gráficos e fórmulas mágicas de gastos e economias, mas confesso que não sou parâmetro para quem começou o planejamento financeiro meses antes de ir.

Como já devem ter percebido, a vontade de passar um tempo fora não é um surto que surgiu do nada. Sempre insisti nisso, e dadas as negativas frequentes dos meus pais, adotei o clássico: “Quando tiver meu dinheiro, eu vou”. Acabou que esses vetos lá de casa tiveram um ótimo efeito pedagógico. Criei senso de responsabilidade para ir economizando desde cedo, sem precisar me privar de nada que era fundamental.

Outra característica que me exclui de possíveis referências é a paranoia conservadora que tenho em relação a dinheiro. Muitos viajantes acham bem ok guardar uma quantia mínima e depois se virar, passando perrengue se necessário. Eu já sou dessas que precisam de um bom colchão de reserva para ficar tranquila, inclusive para manter tudo sob controle na volta.

Mas a boa notícia é que a Ásia é um continente muito barato. A Rachel Verano, jornalista tarimbadíssima de turismo e lifestyle e autora do delicioso blog I’m In Asia Now (inspiração-mor para essa viagem sair do papel), disse que o gasto para duas pessoas, incluídos os deslocamentos internos, não passou de 1500 euros por mês. “Uma amiga fez a volta ao mundo sozinha num esquema bem mochilão e fez cálculos de US$ 1.000 por mês, em média”, completou, em uma das mensagens que trocamos.

Animados?


O que queremos

Minha amiga disse ontem que adorou ser citada no post 2013. Talvez porque moramos longe, talvez porque nos falamos menos do que devíamos, ela não saiba exatamente porque está no hall eterno das pessoas queridas.

Quando cheguei do interior de São Paulo, tinha pouco mais a oferecer que expectativas exageradas e promessas de boas risadas. Já ela tinha tudo, e ainda assim arrumou espaço para me acolher e fazer da minha Brasília um lugar melhor.

Nos últimos anos, e especialmente nessa fase pré-viagem, outras pessoas assim apareceram, ajudando e incluindo sem pedir nada em troca. E eu sempre me surpreendo, dado o contraponto com a inclinação meio egoísta da realidade em que vivemos.

Adoramos quando somos bem tratados por um estranho, mas a motivação para ajudar um desconhecido não é lá das melhores. Esperamos que nossos amigos movam montanhas, mas não é raro estarmos super ocupados quando eles precisam de alguma coisa. Desejamos ser queridos por todos, mas mal paramos para ouvir o outro com mais atenção.

Esse sabático não é apenas uma quebra de rotina. É o momento de consolidar valores para toda a vida.