Índia para os fortes

Comemorando com os sikhs

Comemorando com os sikhs

Fui atropelada por Amritsar.

Cidade mais pulsante do Punjab, ela consegue ser uma Índia ainda mais frenética. Língua, música, estilo e cultura são próprios da região, com um quê meio árabe, quem sabe lembrando que o Paquistão está logo ali do lado. Desavisada, minha energia foi para o ralo sem chance de defesa.

A cidade é a casa do incrível Templo Dourado e capital espiritual da religião sikh. A crença surgiu no Século 15, pregando a fé em um Deus único e nos ensinamentos professados por seus gurus. Sabe aqueles homens de olhar incisivo, turbante, barba e bracelete prateado, às vezes com uma faca ou espada pendurados na cintura? São os sikhs. No museu local, a vocação marcial é explicada em centenas de pinturas sanguinolentas que retratam mártires e heróis encrencados por não abdicarem de suas crenças.

Um dos maiores pilares da fé sikh, a igualdade entre os seres humanos tem sua maior síntese nas enormes cozinhas dos templos. Elas servem gratuitamente todos aqueles dispostos a se sentarem no chão, dividindo fileiras com esfarrapados e donos de celulares de última geração. Daquelas coisas que não tem como explicar, só se unindo aos milhares que passam por ali todos os dias para entender.

Além da enorme carga religiosa que atrai fieis de todas as partes do mundo (ou até por causa disso), Amritsar é um caldeirão de gente que empurra, que esbarra, que buzina, que pedala, que vende e que cozinha no meio das ruas sem calçadas. É o caos no caos, e nem as noites são poupadas.

Para convulsionar ainda mais, cheguei no meio de um evento adorado pelos hindus, o Diwali. O Festival das Luzes também tem um sentido especial para os sikhs, que se amontoaram no Templo Dourado no último domingo para ver a queima de fogos. Os estouros começaram às 18h30 e terminaram madrugada adentro pelas ruas da cidade, como se Amritsar já não fosse o bastante.


Por que outubro?

Ninguém entendeu muito quando marquei o começo da epopeia para outubro, um mês normal para nós brasileiros. Mas como tudo na viagem, isso também tinha sua razão de ser.

Primeiro veio o clima. A melhor época para visitar a Índia, nosso ponto de partida, é entre outubro e janeiro. É um período mais fresco que chega logo após as monções, fenômeno que conhecemos bem pela televisão. As chuvas caem forte entre junho e setembro, deixando rastros de inundações e caos em várias partes do país. Também percebi ser prudente evitar a época entre março e maio, quando não é raro os termômetros marcarem 45 graus (sorry, Rio).

O segundo quesito foi cultural. Claro que a Índia tem festivais o ano inteiro, mas percebi que havia uma concentração interessante nesse período. Logo na minha chegada a Delhi, em meados de outubro, tem o Dussehra. Essa festa é super popular e ganha nomes diferentes em outras partes do país. Resumidamente, os indianos comemoram a vitória do bem sobre o mal.

Diwali em Amritsar (Punjab), onde devo estar neste ano (Gunmeet Singh / Creative Commons)

Diwali em Amritsar (Punjab), onde devo estar neste ano (Gunmeet Singh / Creative Commons)

No começo de novembro tem o Diwali, o Festival das Luzes. Mais uma vez, as divindades são o foco das comemorações, turbinadas com fogos de artifício, procissões e iluminação especial nos prédios tradicionais.

Saindo do campo religioso, em meados de novembro tem a Feira de Pushkar. Se na maior parte do ano essa pequena cidade do Rajastão atrai fieis para visitar um dos raros templos dedicados ao deus Brahma, na época da feira ela atrai milhares de comerciantes interessados em negociar camelos e gado, algo que lembra remotamente nossas feiras agropecuárias. Só adiciona aí umas toneladas de exotismo.

Infelizmente, o Holi vai ter que ficar para a próxima. Espécie de Carmaval dos indianos, o Festival das Cores acontece em março celebrando a chegada da primavera. Sempre foi um dos meus preferidos pelas imagens lindas que chegam de lá, com o povo na rua coberto de pó colorido e de tinta dos pés à cabeça. O festival se popularizou tanto pelo mundo que já soube de pelo menos duas versões em São Paulo apenas neste ano.

Como não amar esse país festeiro?