Pushkar delirium

IMG_2256A primeira vez que soube de Pushkar foi pelo blog da Rachel e do Marco. E desde que li este post aqui, a feira anual que acontece por lá virou destino dos sonhos. Como resistir à mistura entre o furdunço típico de exposições agropecuárias (Fernandópolis <3) e o indian way of life? Só vendo.

Primeiramente, Pushkar em si já vale a visita. Cidadezinha de cerca de 15 mil habitantes encrustada no efusivo estado do Rajastão, é daquelas que dá para fazer tudo a pé. Fica instalada confortavelmente entre morros, dunas arenosas e um lago, considerado super sagrado pelos hindus. Segundo consta, Pushkar é o único lugar da Índia com um templo dedicado ao deus Brahma, que juntamente com Shiva e Vishnu, formam a santíssima trindade do hinduísmo.

Então que aqui já é um lugar de forte peregrinação religiosa para os indianos. Aí tem a peregrinação dos gringos mochileiros da cannabis (que aqui é meio que liberada). Eles fazem uma escala especial para provar o famigerado bhang lassi, literalmente, iogurte de maconha (faça uma rápida busca no Google para entender do que eu estou falando). Tem também os outros turistas ocidentais que vêm só pelo charme da cidade mesmo.

Mas aí tem a feira em meados de novembro, e bem, Pushkar vira uma mistura de tudo que você imaginou e não imaginou ver um dia.

Basicamente, milhares de comerciantes de gado, búfalos, ovelhas, cavalos e camelos de todo o país desembocam na cidade para trocas comerciais. Diferentemente das nossas assépticas feiras agropecuárias, eles se instalam em tendas espalhadas por um enorme espaço arenoso nas cercanias da cidade. Ficam lá meio nômades, junto de seus animais, que andam semi-soltos por todos os lados. Diferentemente das nossas burocráticas feiras, aqui parece que não tem muita frescura não: chegou, vai expondo e vendendo. Oferta e procura estão mais que suficientes para regular qualquer coisa que seja.

Aí que esse movimento acaba atraindo muitos outros movimentos, como expositores que vendem de jogo de canecas de vidro a brinquedos estranhos, de batidas sem álcool (aqui é proibido) a tratores, de calças jeans a uma nova fé. E tem vários parques de diversões (quatro rodas gigantes, gente), com shows de mágica bisonhos, globo da morte que não é globo, brinquedos puxados por tração humana, crianças pintadas como deuses hindus pedindo esmola.

E tem competições loucas como a do melhor bigode ou de qual estrangeira é a melhor noiva indiana. E tem artistas mambembes exibindo truques que despertariam ira nos protetores de crianças, macacos e cobras, no estádio cuja principal regra é não ter regra nenhuma. Tudo entre incontáveis excursões de idosos ocidentais montados em camelos com pompons coloridos, balançando para lá e para cá enquanto disparam suas câmeras sem parar.

Fiquei enfurnada nesse fuzuê por três dias, andando ao sabor da poeira, olhões ainda mais arregalados para absorver a overdose de informações. E olha, não precisou nem de bhang lassi para me sentir em outro planeta, viu.


Por que outubro?

Ninguém entendeu muito quando marquei o começo da epopeia para outubro, um mês normal para nós brasileiros. Mas como tudo na viagem, isso também tinha sua razão de ser.

Primeiro veio o clima. A melhor época para visitar a Índia, nosso ponto de partida, é entre outubro e janeiro. É um período mais fresco que chega logo após as monções, fenômeno que conhecemos bem pela televisão. As chuvas caem forte entre junho e setembro, deixando rastros de inundações e caos em várias partes do país. Também percebi ser prudente evitar a época entre março e maio, quando não é raro os termômetros marcarem 45 graus (sorry, Rio).

O segundo quesito foi cultural. Claro que a Índia tem festivais o ano inteiro, mas percebi que havia uma concentração interessante nesse período. Logo na minha chegada a Delhi, em meados de outubro, tem o Dussehra. Essa festa é super popular e ganha nomes diferentes em outras partes do país. Resumidamente, os indianos comemoram a vitória do bem sobre o mal.

Diwali em Amritsar (Punjab), onde devo estar neste ano (Gunmeet Singh / Creative Commons)

Diwali em Amritsar (Punjab), onde devo estar neste ano (Gunmeet Singh / Creative Commons)

No começo de novembro tem o Diwali, o Festival das Luzes. Mais uma vez, as divindades são o foco das comemorações, turbinadas com fogos de artifício, procissões e iluminação especial nos prédios tradicionais.

Saindo do campo religioso, em meados de novembro tem a Feira de Pushkar. Se na maior parte do ano essa pequena cidade do Rajastão atrai fieis para visitar um dos raros templos dedicados ao deus Brahma, na época da feira ela atrai milhares de comerciantes interessados em negociar camelos e gado, algo que lembra remotamente nossas feiras agropecuárias. Só adiciona aí umas toneladas de exotismo.

Infelizmente, o Holi vai ter que ficar para a próxima. Espécie de Carmaval dos indianos, o Festival das Cores acontece em março celebrando a chegada da primavera. Sempre foi um dos meus preferidos pelas imagens lindas que chegam de lá, com o povo na rua coberto de pó colorido e de tinta dos pés à cabeça. O festival se popularizou tanto pelo mundo que já soube de pelo menos duas versões em São Paulo apenas neste ano.

Como não amar esse país festeiro?