Vai Camboja!

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O Camboja passou rápido ou não peguei direito? Era isso mesmo?

Por dificuldades de logística e tempo, o “leste selvagem” ficou para trás, mas sei lá se isso resolveria. Talvez seja mais complicado, um negócio que só como visitante não adianta.

O Camboja é mais urbano que o Laos e aparenta mais estrutura turística, mas fica a sensação de que, por trás de um incipiente desenvolvimento, o que tem mesmo é mais miséria humana. Mais gente pedindo dinheiro nas ruas, mais cada um por si, mais sujeira, mais insegurança. Compreensível em um país onde pessoas foram animalizadas até pouco tempo, matando para continuarem vivas, roubando para não morrerem de fome.

Só soube depois que significativa parte das terras públicas e dos negócios locais está disposta em leasings de até 99 anos para exploração privada/estrangeira. Ou seja, não basta a invasão francesa de quase século. Não basta guerra civil. Não basta o Khmer Vermelho. A impressão é de que o Camboja ainda não é dos cambojanos e não será por um bom tempo. Forças invisíveis parecem impedir o desenvolvimento coletivo em prol do dinheiro fácil na mão de poucos. E o amanhã segue incerto para o pais que ainda cata os pedaços do ontem.

Diz que a bilheteria dos templos de Angkor, a vaca gorda do pais, está enrolada na mão de uma empresa que ninguém sabe bem como chegou lá. Praias e ilhas da magnífica costa sul foram cedidas para exploração de grupos que prometem acabar com qualquer vestígio de paraíso rústico, mirando turistas endinheirados (imagine Phuket, na Tailândia). Os moradores que resistem não fazem qualquer melhoria esperando o despejo dentro em pouco. E aí as praias, que de longe são a coisa mais linda do mundo, de perto estão sujas e acochambradas.

E Kep? Balneário de gente rica na era França, foi depenada no pós-Khmer Rouge. Cercada de morros, verde e mar, a antiga formosa hoje está mais para locação de terror B, com suas entranhas de concreto à mostra. Diz que estão segurando tudo para especular.

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Mas quero acreditar que as coisas vão melhorar. Os cambojanos são alegres e boa gente, tem muitas ONGs atuando ali. Só não sei se posso dizer que é uma questão de tempo, considerando essa humanidade reincidente em andar para trás. Eu reincido na fé no futuro.

ps: já no Vietnã! Acompanhem minhas andanças pelo link da aba Roteiro!

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O pior dos vermelhos 2

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(continuação do post de ontem)

Lembra da Indochina turbulenta no pós-Segunda Guerra? Pois é. Assim como o Laos, o Camboja também tornou-se independente da França em 1953 e também voltou ao regime monárquico. Mas diferentemente do vizinho, que apoiou a ofensiva anticomunista dos EUA, o rei Sihanouk passou uns bons anos em cima do muro, tentando se equilibrar entre disputas internas e externas.

Foi nesse cenário instável que um golpe militar pró-EUA assumiu o Camboja em 1970, destronando o rei e marginalizando os crescentes comunistas do Khmer Rouge. A corda bamba política estourou de vez cinco anos depois, quando os vermelhos chegaram ao poder (de novo, igual ao Laos). Só que enquanto no vizinho esse processo significou relativa paz, no Camboja foi o começo do fim.

Apoiado em interpretações muito peculiares dos ideais comunistas, o Khmer Rouge, liderado pelo ex-professor Pol Pot, aboliu escolas, religiões, família e qualquer outro conceito de cultura ou de coletividade conflitante com a “causa do proletariado”. Seu exército foi recrutado entre jovens miseráveis sem qualquer perspectiva, servidos com explosiva lavagem cerebral de ignorância, ódio e promessa de futuro melhor. Foi esse exército de esfarrapados que invadiu e esvaziou as principais cidades cambojanas em 1975, mandando todos os moradores para trabalho forçado no campo. Possíveis ameaças ao sistema (aqui inclusa a habilidade de falar outra língua ou ter diploma superior, por exemplo), eram eliminadas nos campos de morte. Um dos slogans do regime: “Melhor matar um inocente por engano que poupar um inimigo por engano”.

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Pol Pot

Hoje sabe-se da existência de 300 campos de extermínio e estima-se que 3 milhões de cambojanos morreram ou foram mortos na época do Khmer Rouge, média de um em cada quatro habitantes do país. Os assassinatos coletivos aconteciam durante a noite. Os prisioneiros eram descarregados dos caminhões em áreas remotas e levados um a um para a beira das valas coletivas, onde eram mortos com ferramentas agrícolas (não havia dinheiro para balas de revólver). No campo de extermínio Choeung Ek, perto de Phnom Penh, roupas e ossos ainda brotam da terra quando chove muito.

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O Khmer Rouge foi destituído do poder em 1979, mas nada muito sério não. Os principais líderes se isolaram na fronteira com a Tailândia e lá viveram uns bons anos de tranquilidade. Pol Pot morreu oficialmente de ataque cardíaco em 1998. Quatro dos maiores mentores, hoje velhinhos caquéticos, estavam sendo julgados por uma corte especial até pouco tempo.


O pior dos vermelhos

Todo fim de tarde a mesma coisa. Depois de rodopiarem incansáveis pela fenda escura, milhares de morcegos começam a deixar a caverna pontualmente às 17h10. A nuvem negra vai saindo em fluxo continuo para algum lugar nos arredores de Battambang, cidade no noroeste do Cambodia. São tantos que a revoada dura mais de hora.

Percebo uma movimentação do meu lado. Um guia/motorista de tuk tuk tenta explicar o curioso fenômeno para seus dois clientes, mas eles parecem mais interessados em fotografar que em conversar. Percebendo o quase monólogo, vou puxando assunto.

E para onde eles vão? Quantos são? O que eles fazem de noite? Quando voltam? Alguns não voltam. São “pescados” em redes montadas pelo pessoal do mercado, que repassa a iguaria na manhã seguinte. E você come morcego? (Cara de nojo) Não! Claro que não! Mas já comeu.

Aqui a conversa vira um despejo de informações em inglês quebrado entre gesticulações e olhos mareados, perdidos em algum lugar. Ele era de Phnom Penh. Tinha 20 anos quando os soldados do Khmer Rouge invadiram a capital do Camboja expulsando os moradores para o campo. Não ficou ninguém, a cidade virou fantasma. Foi para a colônia de trabalho no campo, as pessoas passavam fome e comiam qualquer coisa, inclusive morcegos e ratos. Roubavam comida quando não tinha jeito.

“- Roubei comida”, confessa.

Famílias foram separadas, festas e casamentos eram restritos ou impedidos, gente levada sem motivo que nunca mais voltou. Muitos não viam mais sentido em viver e pulavam da árvore com um pano amarrado no pescoço. “Eu comia rato e morcego, mas depois nunca mais”. O que você come hoje? “Porco, vaca, frango, eu gosto de frango. Ah, e vou ao banheiro todo dia hoje (bate na barriga). Naquela época uma vez a cada cinco dias, porque não tinha comida né”. Riu.

Os clientes reaparecem pedindo outro lugar para observar melhor os morcegos. Apertamos as mãos, pergunto seu nome, sua idade, 59. Desejo um bom dia, foi um prazer conhecê-lo.

De volta ao tuktuk, repasso nossa conversa e tento focar na nuvem de morcegos que abre e fecha voando ao longe. Viro o rosto para não encarar os outros passageiros e engasgo com um choro urgente, mas não o último.

***

No dia seguinte saí de bicicleta pela cidade e acabei em um monastério usado como prisão nos tempos do Khmer Rouge. Hoje é um monastério de novo, mas as lembranças daquela época estão gravadas em placas de concreto em um memorial na parte dos fundos. Elas falam sozinhas.

20140612-182037-66037331.jpg(Os torturadores abriam o peito das vítimas, removiam os fígados e canibalizavam seus órgãos)

20140612-182041-66041043.jpg(O Khmer Rouge esvazia o hospital)

20140612-182041-66041450.jpg(O Khmer Rouge confisca todas as bicicletas da população)

20140612-182040-66040385.jpg(Durante os interrogatórios, as vítimas são obrigadas a admitir e a confessar qualquer crime imposto pelos carcereiros)

20140612-182042-66042159.jpg(Homens e mulheres são sistematicamente escolhidos para serem mortos como exemplo para os outros. Eles diziam: Se mantermos vocês não há ganho, se matarmos não há perda)

20140612-182037-66037749.jpg(Sacos plásticos são usados para sufocar as vítimas durante os interrogatórios. Afogamento é usado para assustar as vítimas)

20140612-182042-66042810.jpg(Crianças entre 3 e 9 anos são tiradas dos seus pais)

20140612-182038-66038465.jpg(Templo budista é usado como prisão e profanado)

20140612-182040-66040706.jpg(As crianças são mortas enquanto os pais assistem e depois eles são executados)

20140612-182036-66036937.jpg(As pessoas são forçadas a trabalhar em batalhões agrícolas)

20140612-182038-66038829.jpg(Os torturadores extraiam as unhas das vítimas durante os interrogatórios)

20140612-182039-66039741.jpg(A ponta afiada de uma folha de palmeira é usada para cortar o pescoço da vítima)

20140612-190607-68767695.jpg(Mulheres são estupradas e mortas)

O mais chocante é que isso tudo aconteceu ontem, entre 1975 e 1979. Depois do que vi e ouvi em Battambang sempre tenho o sorriso mais terno reservado para qualquer cambojano acima de 40 anos, os sobreviventes do horror do horror.

Falo mais sobre o Khmer Rouge no próximo post.


Duas

Estava em uma vídeo-chamada com o Brasil quando elas passaram em frente ao restaurante. Por isso não vi bem quando a pequena puxou uma cadeira e se instalou na minha mesa. A mãe tentava tirá-la de lá enquanto eu me enrolava entre o inglês e o português para explicar em casa o que estava acontecendo e a elas que, claro, podiam ficar.

Pediram pizza, coca-cola, suco de melancia e vagem. Angelika saltitava lá é cá com seu vestidinho longo florido e cabelinho preso em uma borboleta, enquanto Jamie adivinhou de primeira que eu era brasileira. Disse adorar o país, já esteve por lá seis meses há dois anos. Goiás, Acre, Amazonas, Bahia, São Paulo, Paraná, de repente até outros lugares mas não deu tempo de falar. Ficou dois meses na casa de John of God, testou desintoxicação com venenos de pele de sapo em uma tribo isolada da Amazônia. Nunca vacinou sua filha, protegida por energização da alma. O narizinho com bolha queimado de sol logo sara.

Natural dos Estados Unidos, Jamie viaja há seis anos, e se viu grávida na metade do caminho. Do pai não perguntei, disse apenas que não esperava. A menina começou a atirar os clipes da mesa na rua. Depois da conversa séria, Angelika fez que entendeu e sossegou dentro do possível para uma criança de três anos. A mãe conta que até ali a mochilada a duas ia bem, incluindo meses com a recém-nascida entre Nepal e India. Mas parece que agora a mocinha começou a ficar cheia de vontades e ela precisa encontrar uma forma de mostrar como funciona a sociedade em equilíbrio.

A menina pula no meu colo e começamos a desenhar letras no guardanapo. Pergunto como recebeu a notícia de um bebê. Jamie diz que foi uma questão de se reprogramar: o que era um, virou dois, o que demoraria um ano, levou dois. Mas que o ato de viajar sempre foi o grande motivo para manter tudo em ordem. Conta que agora seu maior desafio é ensinar à pequena que algumas culturas não podem em outras e vice-versa.

Angelika começa a ficar com sono quando ainda discutíamos viagens de jipe à África e mochilões pela América Central. Motivo para nova conversa entre mãe e filha. “Quando você brinca com seus amigos a mamãe sempre espera, agora a mamãe está feliz com a amiga e você tem que ser paciente também”. Puxando a borboleta do cabelo, a garotinha esboça um muxoxo mas parece entender que aquilo faz sentido.

Nas muitas recomendações e até logos da despedida acabei perdendo o contato digitado provisoriamente no telefone. Mas o mundo está aí, elas também. Fazer da viagem nosso grande motivo vai manter tudo em ordem.

***
ps: atualização dia seguinte: nos achamos de novo!


Expectativas

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Você pode não saber exatamente do que se trata, mas com certeza já ouviu falar das ruínas de Angkor, ainda que indiretamente (sabe isso aqui? Pois é). Estava eu nessa mesma situação até semana passada, quando cheguei a Siem Reap, minha primeira parada no Camboja.

Fiz exatamente o contrário do que os guias recomendam e fui direto ao mais famoso dos templos, Angkor Wat. Por ser o maior prédio do parque arqueológico, especialistas sugerem deixá-lo por último para não estragar a festa das ruínas menores.

Só que junto com a ansiedade transgressora, veio a expectativa de penetra. Depois de Basílica de São Pedro (Roma), nossa homemade Aparecida, Sagrada Família (Barcelona), Santuário de Fátima (Portugal), entre outros templos não tão grandes embora cativantes, esperava um arroubo emocional. Angkor Wat é imponente, o canal navegável é enorme, os murais em baixo-relevo são imensos… Mas sei lá, faltou aquele “oh” mental reservado a essas ocasiões.

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Me esforcei para desmanchar primeiras impressões apostando nos próximos dias, porque ali precisa de pelo menos três. E aí sim, tudo fez sentido.

Muito mais que ruínas isoladas, Angkor deve ser entendida como uma sobreposição de extravagâncias. Governantes que se sucederam entre os séculos 9 e 15 queriam fazer sempre mais e maior, chegando a um dos maiores complexos urbanos da antiguidade. Cerca de 1 milhão de pessoas viviam ali quando Londres tinha 250 mil habitantes. Prédios, templos, construções hidráulicas e estradas se espalhavam por 400 quilômetros quadrados, e embora aos pedaços hoje em dia, dão uma boa noção do que foi Angkor nos tempos áureos. Se bem que o próprio fato de estar aos pedaços acrescenta muito à magia do lugar.

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Percorrer tudo aquilo de bicicleta fez entender que devia atualizar minha estante de grandes povos das antiguidades, colocando os khmers ao lado de romanos e incas.

Conselho? Guarde suas expectativas. Elas serão devidamente atendidas.


Quiz do domingão

Hoje teve mais um daqueles eternos debates sobre a situação socioeconômica dos países do mochilão. Depois de reiterar que o Brasil não está tão distante dessas realidades, veio o desafio: “Então veja lá o IDH”.

A fórmula de cálculo do Índice de Desenvolvimento Humano, usado pela Organização das Nações Unidas desde a década de 1990,  não é unânime entre estudiosos. Mas não deixa de ser uma régua para os 186 países analisados – e adoramos uma lista, vai.

Divido o quiz com vocês para embalar esse domingão preguiçoso de sol escaldante. Façam suas apostas (respostas depois do mapa).

Destinos, pela ordem: Índia, Sri Lanka, Maldivas, Nepal, Butão, Tailândia, Mianmar, Laos, Camboja, Vietnã, Malásia, Cingapura, Indonésia, Filipinas, China, Mongólia.

(Reprodução IDH 2012 UOL)

(Reprodução IDH 2012 UOL)

Posição dos países no ranking: 13º Hong Kong (China); 18º Cingapura; 64º Malásia; 85º Brasil; 92º Sri Lanka; 101º China; 103º Tailândia; 104º Maldivas; 108º Mongólia; 114º Filipinas; 121º Indonésia; 127º Vietnã; 136º Índia; 138º Laos e Camboja; 140º Butão; 149º Mianmar; 157º Nepal.