Epílogo

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Essa foi daquelas vezes de seguir porque precisava, mas podia ficar. Mais dias, mais semanas, não sei ao certo, porque o tempo ali não é desse como conhecemos, de valor agregado. Os dias passam como uma grande esteira de acontecimentos em repeat. “O ônibus não veio hoje? Amanhã ele vem”. Na rotina absurdamente alargada entre um balanço de rede e outro, cabe tanta coisa que inclusive cabe nada. E o nada, derivante primeiro da tranquilidade e da paz de espírito, é maravilhoso.

Eu já sabia que o Laos seria diferente. Senti uma empolgação pré-fronteira que andava sumida, mesmo que até ali soubesse pouco além do governo comunista, da não-saída para o mar, da ex-colônia francesa de baguetes, dos conflitos recentes.

Foi só chegando lá que descobri o karaokê ainda na moda, a beerlao, o laap (versão veg, claro). Os banhos coletivos na rua. Os funerais-festa. As bombas que explodem sem guerra. A natureza que é mais regra que exceção. A habilidade de passar mais dias em estradas e rios que propriamente em algum lugar. A capital nacional que sequer tem um prédio de cinco andares, sequer uma sala de cinema. A simplicidade rural politizada que sabe não ser miséria nem ignorância. A não-ganância. O avexo do desenvolvimento industrial/capitalista, que quase desistiu de ir porque não foi convidado.

No Laos aparentemente todo mundo está feliz assim. Fui feliz eu também.

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p.s.: já no Cambodia, tentando me impressionar com Angkor. Acho que amanhã consigo!

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Kong Lor

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Eu já estava rendida. Há muito elegi o Laos top destino belezas naturais (e olha que venho do mesmo país do Jorge Ben).

Mas não satisfeito com os rios de toda gama de cores; não satisfeito com as cachoeiras e lagos cênicos em azul turquesa; não satisfeito com as incríveis formações rochosas calcárias, que despontam das planícies em contornos inusitados; não satisfeito com a infinidade de verde preponderante; o Laos foi além.

Não que o país deixe a desejar no quesito cavernas – elas são muitas e estão por toda parte. Mas existe uma que demanda atenção especial. O lugar que pagou cada hora extra em estradas poeirentas, cada chacoalhada em tuktuk.

Um quilômetro separa a microvila homônima do parque nacional. Mal cheguei e me surpreendi com o rio esmeralda que sai da boca de pedra, tão cristalino que dá para ver tudo que os peixes aprontam ali embaixo. O barqueiro esperava lá perto.

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Barqueiro, porque a caverna só pode ser explorada assim. São cerca de sete quilômetros de escuridão em galerias enormes, uma minimaratona subterrânea percorrida pelo tal rio esmeralda de cabo a rabo. Se você gosta de cavernas mas não é muito fã de suadeira nem de aperto claustrofóbico, Kong Lor é o seu lugar.

Me senti personagem de Julio Verne entrando naquele mundo desconhecido. O dia brilhante deu lugar à escuridão fresca e úmida, cortada apenas pelas nossas lanternas e pelo barulho do motor do barco.

Alguns minutos depois, as pupilas ainda arregaladas pela falta de luz, o barqueiro pára e pede para descer. Vai até uma caixa, e do breu total brota uma floresta de estalactites e de estalagmites. Estrategicamente iluminadas, elas são facilmente acessadas a pé, algumas com mais de metro de diâmetro.

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De volta ao rio, seguimos caminho caverna adentro. O barqueiro ri das minhas exclamações em voz alta, aparentemente acostumado com esse tipo de reação. Cerca de uma hora depois, as paredes mudam do negro para o cinza. Chegamos do outro lado, onde a boca de luz abre novamente para receber o rio.

Já no caminho de volta, apagamos as lanternas e fabricamos um grande nada com barulho de água corrente. A sensação não é de estar em um útero, como já experimentei em andanças pelas cavernas brasileiras, e sim flutuando no grande vazio universal.

p.s.: Dizem que as cavernas do Vietnã são ainda mais impressionantes. A conferir.


Senta

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Esses dias mencionei aqui como a história recente do Laos vem mexendo comigo. Hoje é dia de falar mais disso.

A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945 com dois caroços entalados na goela: a Guerra Fria e o futuro das colônias tardias na África e na Ásia. Com pouco mais de 1 milhão de habitantes na época, grande parte iletrados ocupando a área rural, quis o destino que o Laos sofresse os efeitos das duas coisas, seguida e interligadamente. Resultado: 30 anos extras de crueldades e de chagas sociais que custam a curar.

Fracassados os esforços para tentar segurar a colônia, a França desocupou o Laos em 1953, não sem antes deixar um rastro de sangue. Longe de selar a paz, o evento abriu portas para um futuro ainda pior. O poder monárquico instalado encontrou resistência de comunistas influenciados pelos vizinhos Vietnã e China. Foi o suficiente para atrair a atenção e a antipatia dos Estados Unidos, então obcecados contra a expansão vermelha na Ásia. Com o respaldo do governo local, os EUA viraram sua artilharia para as áreas montanhosas ao leste do Laos. Tinham até sua própria base aérea escondia por lá, de onde saiam missões a cada oito minutos nos períodos mais movimentados.

Mas enquanto a Guerra do Vietnã comia solta na televisão, no supostamente neutro Laos tudo era segredo (devidamente encoberto pelos simpatizantes do status quo). Segundo consta, o país tornou-se o mais bombardeado per capita do mundo entre as décadas de 1960 e 1970.

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O fracasso americano no Vietnã desencadeou a suposta paz civil no Laos logo em seguida. Os comunistas declararam a revolução em 1975 e permanecem até hoje no poder. A guerra acabou, mas o ritmo rural do Laos, onde o tempo corre em outro passo, trouxe mudanças pouco expressivas nos últimos 40 anos.

Exposições e documentários lembram que explosivos hibernantes ainda matam e aleijam, alguns casos por acidente, outros porque miseráveis procuram metal para vender a preço de ouro. O banco da pousada, a cerca do restaurante, o barco, são cascas de bombas adaptadas. A moda local tem fortes referências militares (demorou até entender que aqueles camuflados na rua eram civis). O prazer de explorar a deslumbrante natureza vira certa apreensão quando uma equipe anti-bomba aparece para limpar a área. Dá um nó na garganta ver enormes buracos redondos enfiados entre campos verdejantes e imaginar como aquilo foi parar ali. Se tinha alguma casa, se alguém morreu. Se o cenário parecia com os desenhos hoje expostos no museu, cheios de tinta vermelha e de cabeças degoladas.

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As pessoas do Laos são amigáveis, mas carregam um quê de sofrimento e de cansaço ainda fresco. Um rapaz me conta que seu pai escolheu o lado errado e lutou com os Estados Unidos na época. Pergunto se é verdade o que vi em um documentário – que o governo persegue e mata esses clãs até hoje como retaliação. Ele dá um sorriso amarelo, faz que não com a cabeça e desconversa, mas os campos de refugiados na Tailândia aparentemente dizem o contrário.

Em outro documentário, uma senhora contava aos prantos que os habitantes do Laos foram massacrados por um inimigo que sequer conheciam, nem antes nem durante o conflito, quando só choviam bombas do céu. Outro dia fiquei confusa ao ver um senhor usando boné com a bandeira dos Estados Unidos.

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Autodeclarado o mais pobre do Sudeste Asiático, hoje o país recebe ajuda financeira de várias potências econômicas e organizações, com parcerias amplamente divulgadas em placas e cartazes.

Escaldada com as maldades do mundo, me pergunto se é caso de devida culpa passada ou de escusos objetivos futuros. O povo do Laos não merece mais sofrimento.

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Compêndio – Transporte no Laos

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Cena 1

Meu primeiro ônibus no país. O tíquete comprado na agência em Luang Prabang ia até Phongsali, no extremo norte. Cerca de 14 horas de viagem sem troca de ônibus, saindo da rodoviária às 16h30, disse a moça. “Nossa, nem sei porque tanta gente reclama do transporte aqui, tudo tão fácil!”. Ela riu.

Passam 17h30, 18h30, 19h30, leio livro, jogo Candy Crush, nada. Perto de fechar a bilheteria, o tiqueteiro coça a cabeça e sugere que eu me junte aos locais na mesma situação, pegando ônibus até Oudomxay, no meio do caminho.
– E ninguém sabe onde está o ônibus atrasado? O motorista não tem celular?
– (faz não com a cabeça)
– Mas que hora esse outro ônibus chega em Oudomxay?
– (faz 2 com a mão e mímica de dormir)
– E que horas sai o próximo ônibus de lá até Phongsali?
– (faz 9 com a mão)
– Ah.

Já vou passar a noite em uma rodoviária desconhecida no interior do Laos, sou a única ocidental, e ainda percebo um valor menor na devolução do dinheiro. Parece que uma parte ficou com a agente de turismo sorridente.

Às 2h30, saltamos na tarantinesca rodoviária de Oudomxay. Quando afofava a tralha para dormir em cima, uma buzina reverberou ao longe. Era o suposto ônibus direto das 16h30 passando à toda (mas isso só soube depois). Num salto, fiz como os locais e disparei gritando na rodovia escura, já sem saber se o mais trambolho era eu ou a mochila. Cheguei em Phongsali na tarde seguinte, 8 horas depois do previsto. Mas deu tudo certo.

Cena 2

O objetivo era pegar um ônibus em Phongsali e chegar ao porto fluvial de Hat Sa. “O que pode dar errado em 21 quilômetros?”, pensei. Juntamente com outros moradores locais, quatro turistas aguardávamos o dito ônibus desde às 7h15. Era para sair às 8h, mas já passava das 9h15. De repente a rodoviária esvazia, o guichê de tíquetes fecha, e quando nos damos conta, sobramos os quatro forasteiros na festa segurando a vassoura. Tentamos parar o tiqueteiro, que saía de fininho com toalha de banho e escova de dentes na mão.
– Mas o que está acontecendo?
– (faz não com a cabeça, aponta para a rodoviária)
– Não vai ter ônibus? Pode ter ônibus mas você não sabe?
– (confuso, abre caminho na nossa barricada e continua andando).

A chinesa do grupo consegue parar uma caminhonete que passava pela estrada, felizmente dirigida por chineses (eles estão construindo uma hidrelétrica na região). Segundos depois, descolamos carona na carroceria. Chacoalhamos uma hora na lama, que ficou toda na cara e na roupa. Do suposto ônibus nunca tivemos notícia. Mas deu tudo certo.

Cena 3

Disse o livro que sair de Sam Neua, no leste do Laos. e chegar à cidade turística de Vieng Xai, a 30 quilômetros dali, é moleza. Consta que tem transporte público às 10h, 11h e 13h. Cheguei na rodoviária às 9h50. “Why are you so late?”, disse o tiqueteiro, mal disfarçando a graça com a minha desgraça. O único ônibus do dia havia saído há cinco minutos.
– Mas não é possível, o livro falava todos esses horários!!!…
– As coisas mudam toda hora no Laos.
– Ah.

Comecei um cabo de guerra com um dos motoristas de tuk tuk que estava na animada jogatina regada a laolao (a cachaça daqui). Usando o sádico tiqueteiro de intérprete e minha melhor cara de gato de botas, consegui uns 30% de desconto. Ainda assim, fui surrupiada em mais de 22 vezes o preço da corrida normal. Mas deu tudo certo.

Cena 4

Não consigo dirigir moto. Logo, decidi fazer 30 quilômetros de Phonsavan até a antiga capital provincial de Muang Khoun de bicicleta.
– Mas só se tiver como voltar de transporte coletivo com a bicicleta no teto, moço. Tem jeito? Já fiz isso na Tailândia…
– Sim, pode ir tranquila, fazem isso sim, garantiu o oficial de turismo.

Na pior das hipóteses, sabia que podia apelar para um tuk tuk privado como da outra vez narrada na história acima. Até porque o surrupiamento do Laos é muito melhor que o melhor dos descontos no Brasil.

Chegando em Muang Khoun, nada de transporte, público nem privado. Começo o caminho de volta à toda correndo da noite e da tempestade que se aproximavam. Dez quilômetros depois, já entrevada pelo conjunto da obra, apelei para uma família que descarregava sacos na beira da estrada. Vim segurando a bicicleta rodeada de relâmpagos e de sacolas de broto de bambu. Mas deu tudo certo.

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Foto

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Ao contrário do que possa parecer, essa foto não estava pronta para ser tirada. Essas meninas não estavam posicionadas assim, “venha turista”, esperando que eu apontasse a máquina.

Essa foto não teria acontecido se eu não estivesse viajando do meu jeito, sozinha e com tempo para sair do circuito turístico usual. Se eu não tivesse acordado em um dia bom, dispensando o tour de carro e achando que tinha condições de pedalar 60 quilômetros ida e volta para o interior do interior do Laos. Não era apenas economia, era ter tempo sem um guia me importunando. Não era apenas disposição, mas a inabilidade de pilotar uma moto.

Essa foto não teria acontecido se eu não estivesse exaurida, carregando a bicicleta no empuxe, bem na hora da saída da escola. Se a vila não fosse pequena o suficiente para malemá saber o que é turista. Se o fluxo de centenas de rostinhos que passavam por mim não estivessem transmitindo tanta esperança em um mundo melhor que deu até vontade de chorar. Se, talvez percebendo meus olhos cheios d’água, um grupo de meninas curiosas não tivesse começado a caminhar na minha volta entre risinhos tímidos. Se não estivéssemos indo para a mesma direção.

Não teria acontecido se eu não fosse péssima em mímica, e elas ótimas em rir. Se não tivesse uma máquina modernosa de câmera reversa que permite ver como vai sair a foto, e quantas tiramos juntas. Se elas não se deixassem fotografar sozinhas e saíssem correndo, como tanto vi acontecer com turistas afoitos por aqui.

Essa é a história dessa foto.

p.s.: aos que apostaram contra a pedalada de 60 quilômetros, estão cobertos de razão. Fomos rebocadas no meio do caminho de volta, eu e bicicleta, confiantes na boa vontade de uma família local que passava de caminhonete.


Laotizando

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Passa de meia noite. Escrevo esse post de um vilarejo incrustado entre escarpas calcárias gigantes no norte do Laos. Na casa bem ao lado, caixas de som ecoam desde manhã uma mistura de canto tradicional, sino, pandeiro e rabeca rústica. A rua, fechada com tendas, mesas e comida, reúne gente em frente a uma casinha de boneca com luzes e dinheiro pendurados. Vibram e batem palmas a cada final de repente berrado ao microfone. Tudo que consegui apurar é que se trata do evento fúnebre póstumo de um querido pai.

É esse país que vem me enredando nos últimos dias, entre encantos e desenganos. Exceto pelos olhos amendoados, o Laos, melhor dizendo, Lao PDR (People’s Democratic Republic, após a adoção do comunismo em 1975), em nada lembra os vizinhos visitados até aqui. O deslumbre acentuado da natureza e da diversidade étnica batem de frente com a indigesta história política recente de mortes e de miséria humana. Meu coração fica entre derretido e estilhaçado a cada nova investida na cultura local.

Não sei o que mais me pegou até agora.

Se o clima interiorzão do Brasil, de economia essencialmente rural (a maioria dos industrializados vem do Vietnã e da China).

Se o relance de sombra a cada “saibadee” (o oi daqui), resultado de um século de guerras e de tensões políticas que ainda se manifestam em assassinatos e explosões de bombas hibernantes.

Se o povo dócil e festeiro apesar de tudo, ainda não descaracterizado por invasões turísticas. Do tipo que adora um churrasquinho embalado a karaokê e convida para brindar o aniversário com uma BeerLao (servida com gelo).

Se a diversidade que junta maioria budista, culturas tribais, herança vietnamita e chinesa e toque colonial francês.

Se o clima de temperaturas mais amenas e chuvas diárias (que dirá depois da experiência forno-humano na Tailândia e em Mianmar).

Se a natureza padrão super deluxe plus, especialmente exuberante a bordo dos majestosos rios Mekong e Nam Ou.

Se a beleza mágica da antiga capital real Luang Prabang, patrimônio tombado pela Unesco.

Passa de duas da manhã. Cansado de tanta barulheira, o pai mandou um vendaval para acabar com a festa.


Quiz do domingão

Hoje teve mais um daqueles eternos debates sobre a situação socioeconômica dos países do mochilão. Depois de reiterar que o Brasil não está tão distante dessas realidades, veio o desafio: “Então veja lá o IDH”.

A fórmula de cálculo do Índice de Desenvolvimento Humano, usado pela Organização das Nações Unidas desde a década de 1990,  não é unânime entre estudiosos. Mas não deixa de ser uma régua para os 186 países analisados – e adoramos uma lista, vai.

Divido o quiz com vocês para embalar esse domingão preguiçoso de sol escaldante. Façam suas apostas (respostas depois do mapa).

Destinos, pela ordem: Índia, Sri Lanka, Maldivas, Nepal, Butão, Tailândia, Mianmar, Laos, Camboja, Vietnã, Malásia, Cingapura, Indonésia, Filipinas, China, Mongólia.

(Reprodução IDH 2012 UOL)

(Reprodução IDH 2012 UOL)

Posição dos países no ranking: 13º Hong Kong (China); 18º Cingapura; 64º Malásia; 85º Brasil; 92º Sri Lanka; 101º China; 103º Tailândia; 104º Maldivas; 108º Mongólia; 114º Filipinas; 121º Indonésia; 127º Vietnã; 136º Índia; 138º Laos e Camboja; 140º Butão; 149º Mianmar; 157º Nepal.