A semana em um ashram, sem rodeios

Vista da minha "solitária"

Vista da minha “solitária”

Desde que cheguei a Rishikesh, não fiz um amigo e vivo de olheiras fundas, mas há tempos não me sentia tão calma e satisfeita. Detalhe que me hospedei em um ashram considerado liberal, com regra de silêncio mais opcional que compulsória, sem a obrigação da seva (o trabalho voluntário), e com programação bastante flexível. Ou seja, se você quiser falar sem parar e faltar às atividades o problema é mais seu que deles. Mas aí, estar aqui deixa de fazer sentido.

Às 4h30, os badalos da Mangala Aarti tentam acordar os peregrinos (muitos deles indianos) para as primeiras preces do dia. Levantar da cama e encarar o vento frio que sopra entre os morros, ainda encobertos pela noite, é um trabalho diário de superação. Entre 5h e 5h30, o desafio é manter-se desperto com as orações musicadas em sânscrito. A variação mínima dos acordes do harmônio acaba criando um transe mental, e é preciso se policiar constantemente para não passar da concentração para o primeiro estágio do sono.

A terceira prova da madrugada também é daquelas: meia hora de palestra em hindi sobre questões espirituais. Embora seja muito interessante estar ali, só dá para entender os três primeiros oms e pescar algumas palavras como Krishna, samsara, darshan e yoga. Para os não iniciados, outra dificuldade é manter-se sentado no chão em posição de lótus por quase uma hora, com as pernas já dormentes.

A partir das 6h30, são duas horas de yoga e meditação. Embora o nível de dificuldade seja fácil, virar e desvirar o corpo com o cérebro ainda meio zonzo de sono, sem ter comido desde a noite anterior, é uma tarefa mais complexa que parece. O horário entre o café da manhã e a próxima aula (16h) é livre.

Às 17h30, todos os internos são esperados para o Ganga Aarti, a cerimônia de devoção ao rio. Os cantos e orações só terminam com a noite já instalada, quando o Swamiji nos recebe para uma série de perguntas e respostas sobre inquietações da alma. Depois do jantar, é hora de tentar dormir, pelo menos até a próxima madrugada.

****

p.s.: a alimentação do ashram merece um parágrafo a parte. As três refeições diárias são totalmente vegetarianas (sem derivados do leite nem ovos) e naturais – ou seja, nada processado, frito ou com aditivos. A comida até agrada quem não é fresco, mas acaba ficando repetitiva. E é justamente nessa falta de graça que está uma lição interessante: a possibilidade de aniquilar a gula sem muito sofrimento. Você vai comer, feliz, porque seu corpo precisa daquilo, e não pela vontade desenfreada de sentir um gosto específico. O mais difícil é levar essa ideia libertadora para a vida real, com suas rotinas estressantes e fast foods.

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14 Comentários on “A semana em um ashram, sem rodeios”

  1. Marília disse:

    Gostaria muito de viver essa experiência, embora tenho a certeza de que não é fácil (nem parece). A grande questão é tentar ficar tanto tempo sem “preencher” a mente com besteiras, com qualquer coisa, na falsa sensação de que isso acalma, ou relaxa. ADORANDO seus posts, bizonha!

  2. Aline disse:

    perfeito!!! aí, quem sabe um dia!!! morro de medo de avião! hahaha.. bjs!

  3. Aline disse:

    gostaria de fazer yoga! eu tinha que passar uma temporada aí! acho que emagreceria um pouquito!! hahaha.. bjs!

  4. Débora Cronemberger disse:

    Deb, por mais que depois você volte à rotina familiar ocidental/brasileira, essas experiências todas vão te influenciar de uma forma que é difícil de imaginar agora. Essas lições sobre desprendimento (a história das mandalas de areia é fantástica!), desapego – até em relação à forma de encarar a comida como nutrição, e não necessariamente fonte de prazer -, não estão impactando só você, que está aí, pode ter certeza. Influencia todo mundo que lê. Eu confesso que tem sido um enorme prazer acompanhar seus relatos – reze por mim, pois disso não tô querendo desapegar. Beijos mis!

    • deborazampier disse:

      Deb, você é muito querida, esse tempo aqui so me faz valorizar ainda mais as coisas boas que tenho na vida, dentre elas os amigos que me mandam tanto carinho ainda que de longe. E vamos contando as histórias que o mundo é vasto e a viagem é longa! Bj

  5. Mara Garcia disse:

    Comer, REZAR e amar.
    Abraços, boa viagem.

  6. versodomundo disse:

    Agora entendi porque, pela primeira vez, a experiência da meditação tinha sido tão intensa! Seu corpo e sua mente foram levados para um outro nível de realidade. Aí o o transe acontece! Que fantástico!

    • deborazampier disse:

      Patzie, hoje tentei de novo a mesma concentração de ontem mas não rolou funheeeem Tinha uma turma nova enorme de japoneses agitados e os macacos estavam com macaca, querendo entrar na sala o tempo todo haha bj

      • versodomundo disse:

        Vixi, essa combinação de japoneses com a macaca e macacos agitados não tinha nada pra dar certo! Oooops! Bom, uma hora acontece de novo!

  7. Leo Hallal disse:

    O negócio tá ficando sério… Muito interessante tudo isso, especialmente saber que com não variedade, a gula acaba. Conheço um nutricionista que fala a mesma coisa de uma outra forma. Ele sempre me dizia que a variedade no paladar engana o mecanismo de saciedade e nos faz comer demais. Tô adorando seguir você!

    • deborazampier disse:

      Nossa Léo, pude experimentar isso na prática e te garanto que nao causa sofrimento sério essa falta de variedade. A parte mais difícil é ir esquecendo dos gostos que tanto adoramos. Teve um dia que eu não me aguentei e ataquei um saco de batata frita na vendinha aqui do lado haha bj!


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