Guru

Antes de chegar ao ashram, li muitos artigos de ocidentais que procuram esses retiros e saem como chegaram. No meu caso, várias experiências foram marcantes, como as conversas com o guru depois das cerimônias no Ganges. Impossível ficar indiferente à fé das pessoas que vêm até aqui em busca de conforto, solução, bênçãos e agradecimento.

O Swami Chidanand Saraswatiji não é daqueles espirutualistas contemplativos de aspecto sereno. Pelo contrário, é um homem atento, de olhar incisivo e gestos rápidos. Seu currículo com várias iniciativas humanitárias, educativas, sociais, interreligiosas, políticas e ecológicas parece estar mais de acordo com o mundo em que vivemos, tão carente de tantas coisas para já.

As pessoas vêm de todas as partes do mundo para ter aquele breve momento com ele, e a devoção  é tocante. Quando se aproximam, os olhos dos fieis se enchem de ternura e de emoção, e eles fazem reverência tocando a testa próximo ao local onde o Swamiji está sentado.

Os objetivos são dos mais diversos. Alguns fazem perguntas complexas sobre espiritualidade ou deveres como hindus. Outros trazem doações. Um engenheiro americano veio oferecer seus serviços para ajudar no projeto de limpeza do Ganges tocado pelo ashram. Famílias trazem celulares para que o guru abençoe a foto de alguém que está doente ou que acabou de nascer (os hindus acreditam muito no poder da imagem para fins religiosos).

Mas ontem não me aguentei com uma família enorme de avós, pais e filhos que veio ter com o Swamiji. Eles pareciam muito simples, e quem falou em nome de todos foi o patriarca. Ajoelhado em frente ao guru, as palavras em hindi diziam menos que os olhos cheios de tristeza. Embora não tenha entendido uma palavra, percebi que era um momento de muita dor, confirmada pelas lágrimas que escorreram pela farta barba branca.

Uma mulher da família que estava do meu lado rompeu em soluços. O Swamiji falou algumas palavras em tom firme, mas de efeito calmante. Abençoou uma caixa de doces que o homem trouxe, abençoou um manto brilhante que colocou em volta dele e pareceu dar algumas orientações no sentido de que tudo ficaria bem. Toda a família se ajoelhou em frente ao guru, um a um com a cabeça no chão em reverência.

Saí da cerimônia com o coração apertado, e fiquei andando pelos jardins de um lado para o outro. Uma mulher daquela mesma família se aproximou e me ofereceu um doce da caixa abençoada. E a aflição se foi.

P.s.: mais sobre o ashram, seus projetos e como ajudar no http://www.parmarth.com

P.s.2: aos interessados em saber mais sobre gurus, sugiro a leitura do livro Autobiografia de um Iogue. Se você é dos céticos, no mínimo é uma boa obra “ficcional” com temática oriental.