Índia para mulheres

Ia fazer esse post quando estivesse de saída, com a certeza de que tudo correu bem. Mas considerando a quantidade de meninas angustiadas me perguntado sobre o assunto, resolvi adiantar para ajudar no que der.

Quando vim para a Índia, estava tão alarmada com as notícias ruins envolvendo mulheres que até esqueci de ligar o filtro do bom senso para hard news. Porque né, nós jornalistas sabemos mais que ninguém como desgraça vende jornal e como nada é tão ruim quanto parece.

Resumindo, é claro que as mulheres vivem em situação de risco aqui. Mas, na minha opinião, essas violações acabam ganhando ainda mais repercussão porque, diferentemente do Brasil, a Índia não é um país violento. Aqui as pessoas não andam com medo de assalto, sequestro, assassinato. As pessoas não levam tiro à toa na rua. Por isso, acho que estupro aqui choca muito mais que estupro no Brasil. Aliás, estupro no Brasil nem é notícia mais (só se for seguido de morte, e olhe lá).

Pelo que estou percebendo, a situação das estrangeiras é até light: o tranco mesmo é com as mulheres indianas. Ao mesmo tempo que são cobradas como as filhas/irmãs/mulheres perfeitas, com dedicação intensa às famílias, também precisam enfrentar as agruras do mundo moderno. E ainda hoje são preteridas pelos homens da casa, que são o “investimento”, enquanto criar uma mulher é ”regar o jardim do vizinho”, como bem pontuou a jornalista Florência Costa no livro Os Indianos. Detalhe: elas também são assediadas, como muitas já me disseram, só que acabam ficando quietas por vergonha ou para não piorar a situação.

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Meu look bisonho na Feira de Camelos de Pushkar, mas o importante é que funciona (tentei sem a echarpe no rosto, só com os óculos e o boné, e automaticamente quatro homens juntaram em volta).

Quanto a nós, estrangeiras, primeiramente temos que entender que os indianos adoram turistas, homens e mulheres. Então o principal assédio, na maioria das vezes, varia entre a simples curiosidade e o interesse de vender alguma coisa. Já o assédio mal intencionado pode ser minimizado com alguns cuidados simples, especialmente para quem está sozinha. Pelo menos comigo tem funcionado bem.

1)   Você já é visada por vir de fora, mulher ou não, então seu principal objetivo é reduzir o foco de atenção. Use roupas de cores neutras, que deixem o corpo disforme e que não mostrem a pele. Preferencialmente, arremate com boné (com cabelo em coque para dentro), óculos de sol (para não repararem para onde você está olhando) e echarpe.

2)   Em geral, a melhor forma de usar a echarpe é cobrindo o busto. Mas quando o lugar é mais complicado ou se já escureceu, uma ótima solução é cobrir o rosto todo, tipo uma balaclava. Fique tranquila, você não vai ser um ET, embora fique parecido com um – muitos se vestem assim para evitar inalação de poeira. E a invisibilidade é mágica e instantânea (também é o melhor remédio quando você não quer ser incomodada como turista).

3)   Embora seja muito injusta com a grande maioria dos indianos de bem, criei uma regra prática: papo com desconhecidos só com famílias, casais, mulheres e crianças. Se precisar de informações e não encontrar ninguém desse grupo, vá até as autoridades e funcionários públicos, e em última instância, vendedores de estabelecimentos mais respeitados.

4)   Procure sempre estar perto de pessoas do grupo acima, seja na rua, no trem ou no ônibus (vale pedir para o cobrador te vender uma passagem mais perto do motorista). Evite desbravar sozinha lugares ermos ou de evidente predominância masculina.

5)   Se algum homem insistir em se aproximar emparelhando na rua, como muitos fazem, finja que não entende a língua e saia andando. Se for muito insistente, especialmente para fotos, apele para a aliança falsa: diga que não pode porque é casada, funciona na maioria das vezes. Se não der certo, ande em direção a um grupo ou a uma loja e erga o tom de voz. Em geral, esses caras são covardes e saem de fininho.

6) Faça reserva nos albergues/hoteis com antecedência de pelo menos uma cidade, e contrate o serviço que a maioria oferece de buscar no aeroporto ou nas estações de trem ou de ônibus (principalmente se estiver chegando à noite).

7)   Mesmo que fique pouco tempo, considere fortemente a ideia de comprar um chip indiano com pacote de dados, que te dará acesso móvel ao abençoado Google Maps. A tranquilidade de saber o caminho certo sem precisar perguntar nem confiar totalmente nos taxistas vale infinitamente mais que R$ 32. Ah, e embora os vendedores digam que pode levar 48 horas para o chip funcionar, o meu pré-pago, da Vodafone, foi acionado minutos depois da compra, tudo bem rápido e prático. Só precisa levar cópia do passaporte, do visto e uma foto.

8) Ainda sobre mapas: estude todos os lugares e caminhos por onde você pretende passar antes de sair do hotel. Andar na rua com cara de perdida e com o mapa/guia aberto é uma ótima deixa para ser abordada por pessoas indesejadas.

9) Eles vão perguntar sempre (muitas vezes só por curiosidade mesmo), mas nunca diga a um estranho que está sozinha. Falar que seu marido/amigos estão te esperando no hotel é uma boa saída.

10)   Você já não anda sozinha à noite no Brasil, certo? Aqui, o mesmo. Simples assim.

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16 Comentários on “Índia para mulheres”

  1. Carla disse:

    Todas as dicas estão dadas para quem tiver a coragem de desbravar a índia como vc….Se cuida Dê e como disse a Maira cuidado com a tromba d’água!!!Bjão

  2. Andressa Borzilo disse:

    Cara, cada vez que eu leio seus post acho esse lugar mais incrível! Obrigada por compartilhar tudo isso com a gente! Beijos “mama”!

  3. Max Duarte disse:

    Muito show esse visual “espanta-marmanjo”. Talvez seja bom aprimorar o jeito de andar, pisando duro e balançando os braços. Sei lá. No mais, tirando a balaclava, é quase que nem aqui. A estupidez masculina não tem limites mesmo… Bola pra frente. A aventura continua!

    • deborazampier disse:

      Hehehe o bom é que fica invisível também como turista, quando você não quer ser abordado. Vi vários homens assim! E vamos trabalhando por um mundo em que as mulheres sejam livres para ir e vir sem intervenções indesejadas! Beijo Max!

  4. Maira disse:

    Isso mesmo tinho, cuidado com a tromba d’água!!! Hehehe

  5. Aline disse:

    Se as mulheres andarem de outro modo elas estão se insinuando para os homens?? Vc escreve mto bem!! Dá gosto de ler as coisas que vc escreve!! Eu fico aqui ansiosa esperando o próximo post. Bjs.

    • deborazampier disse:

      Então Aline, esse é mais um jeito precavido de andar. Claro que se deixar de seguir as dicas não é necessariamente sinônimo de que vai ter problema, mas é sempre melhor estar um passo à frente. Bj

  6. lourdes disse:

    Que informação recheada!!!!Eta menina danada essa Débora!!!!!Boa sorte, menina corajosa! Beijos e ainda, e como escreve bem, jornalista, já viu!!!!!!!!

  7. Virginia disse:

    Estou tomando coragem… Obrigada pelos posts!!!! Beijos!

  8. Débora disse:

    assim que eu gosto. aventureira, mas prudente. é isso, Deb, é considerar o pior cenário para tomar todos os cuidados possíveis, mas acreditar no melhor. tá indo bem, né? benza deus. beijos

    • deborazampier disse:

      Pois é Deb, às vezes dá peso na consciência de ser bruta com alguns homens que poderiam ser só pessoas boas, mas não tem como dar chance para o azar. Por enquanto está funcionando bem, sim, vamos torcer para que tudo vá nessa toada até o final. Beijo!


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