Sinceramente

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Tem dias que 20 horas com a bunda na cadeira do trem não são aventura, só estafa mesmo. E esperar pelo motorista do hotel que não chega deixa de ser mais um dos zilhões de imprevistos cômicos. Significa se virar com o trambolho nas costas, ardendo não se sabe se do calor do meio dia ou da febre que não passa.

Tem horas que viajar quando 1,4 bilhão saem de férias deixa de ser experiência antropológica para exaurir o mais paciente dos cristãos, com filas intermináveis, lugares esgotados, gente espremida tossindo na sua cara. Significa ter que esperar 10 horas o trem atrasado dormindo no chão (porque nas cadeiras de espera também não tem lugar).

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Às vezes estar sozinha deixa de ser intrepidez para ser solidão. O diferente irrita. A mímica não funciona. A comida não desce. O próximo destino é mais um.

Às vezes, a estrada fica longa para as pernas curtas.

Como tudo na vida, viajar também tem dessas (sempre desconfiei de soluções e de pessoas 100% felizes). Eu gosto assim, e do prazer de redescobrir o mundo bom no dia seguinte.

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No stopping, humans

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Eles de novo

– Perguntei para a dona do restaurante vegetariano/livraria em Shanghai qual CD estava tocando no refeitório porque queria comprar, adorei a música zen. Ela tirou do aparelho e me deu de presente.

– Um dos jovens da dupla de universitários que conheci no trekking por Huangshan acordou no dia seguinte às 6 da manhã para me ajudar nos trâmites rodoviários do destino seguinte (ele ia de trem e só saia de tarde). Não deixou nem eu pagar a conta do taxi.

– A professora chinesa que turistava em Xian desistiu de ver os guerreiros de terracota naquele dia para passar a tarde conversando comigo, que estava doente. Me comprou bolo, macarrão e suco.

– Voltei pela segunda vez no café em Xiahé hoje à noite. Falei para a dona que o lugar dela é aconchegante. Pronto. Agora não quer mais deixar eu pagar conta e disse que me espera para tomar café com ela amanhã.

PAREM! <3


Shanghai, a super

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Não esqueço quando vimos um grupo de turistas chineses em uma estação de esqui na Suíça – se entretiam mais com lojas de relógios que com a paisagem alpina. Dos moneybelts saíam tufos de euros, tudo em cash. Lojistas disseram que não fosse por eles, aquilo ali estaria semimorto.

A China é meio Brasil em muitos aspectos, o vão social um deles. Mas a diferença entre 2,3% e 7,7% de crescimento economico anual grita mesmo em Shanghai, que brilha e cresce a perder de vista.

A maior do mundo é empurrada por 24 milhões (líquidos, nada de ‘Grande Shanghai’). Tudo limpo e organizado, rio e canais navegáveis, uns verdes até na pilastra do anel viário, muitas luzes. É gente se esbarrando para todos os lados, mas nada entupido, como um formigueiro que flui a antenadas cumprindo sua rotina diária.

Vi Prada, Chanel, McQueen no shopping tinindo de design, pensei “Nossa, deve ser o mais chique”. Bah, tinha no outro e no outro e no outro, até na esquina tinha. Me perguntei com quantas Oscar Freires se faz uma West Nanjing Road, com quantas Paulistas se faz um Pudong. Será que as pessoas que vão trabalhar no futuro prédio mais alto do mundo sentirão medo de ver as nuvens passando embaixo delas? Se existe medo de altura sem sair do chão, eu senti.

Enquanto São Paulo discute o tal desenho urbano, Shanghai tem um baita museu só para explicar como vai ser a cidade no futuro. E eu achando que ele já estava ali, naquele skyline metalizado e colorido onde moram os Jetsons.

Gosto de associar cidades a figuras femininas. Paris é a falsa madame blasé passeando com seu poodle. Roma a matrona barulhenta de avental sujo de tomate. Nova Iorque a trintona se segurando no trend enquanto pode. E Shanghai a adolescente saltitante de short curto e boné néon, se retocando no espelho enquanto pensa no que vai comprar amanhã.

Para urbanoamantes como eu, simplesmente imperdível.

***
ps: voltem mais tarde para novas fotos neste post, porque agora a conexão encrispou. Falando nisso, o Flickr deste blog parou no tempo por questões de bloqueio, voltamos na Mongólia!


Lógica chinesa

– Você está viajando sozinha?

– Sim.

– Você tem namorado?

– Não.

– Você está viajando sozinha para curar um coração partido?

*****

Ainda sem tradutor no telefone, tentava explicar para o motorista da van que queria ir para a ferroviária. Muito sabida, yahoozei a imagem de um trem e mostrei na tela. Depois de uns 30 segundos analisando, ele fez não com a cabeça. Alguém apareceu para me salvar no inglês e explicou que sim, daquela área partiam vans para a estação.

Pergunto porque cargas o homem disse o contrário.

– Ele disse que esse trem que você mostrou não tem aqui.


Eles

Já era noite quando desci na estação de trem em Sanjiang para embarcar rumo ao próximo destino. O alívio por chegar a tempo virou apreensão quando pessoas começaram a me apontar um papel em mandarim pregado na parede.

Mandei uma foto por email para o hotel daquela manhã pedindo SOS na tradução. Responderam que a linha não estava funcionando, e um minuto depois, fizeram a gentiliza de enviar uma nova mensagem com todas as formas alternativas de seguir viagem no dia seguinte. Acabei passando a noite em uma espelunca perto dali, a única aberta àquela hora, onde o colchão era uma esteira de bambu.

Pela manhã, o taxi me levou para a estação errada e perdi o ônibus certo. Peguei o rural no lugar do expresso, e a viagem até Tongdao, que era para levar três horas, demorou cinco. Depois entendi que esse era o ônibus premiado; estar rodeada de camponeses, pingando de vila em vila no coração da China, foi uma experiência que nem programando sairia tão boa.

Cheguei em Fenghuang de noite, debaixo de chuva. A cidade histórica estava um breu completo e eu não conseguia achar o hostel. Uma família alemã que passava de lanterna avisou que houve uma enchente e que a parte turística foi toda alagada e estava sem luz e sem água. Procurei um hotel na parte nova, que só tinha luz, e convenci a tia e a sobrinha a cortarem o preço de 250 para 150 yuan como incentivo ao banho de balde. Mas quando tirei a nota de 100 acharam que já estava bom.

No dia seguinte saí para olhar a cidade e o cenário era daqueles. O rio transbordou arrebentando a área histórica justamente na época mais rentável do ano. Só que ali ninguém choramingava. Cada um com sua pá, seu esfregão, seu paninho, retirava os escombros e limpava a lama, às vezes até rindo e brincando com as crianças, com uma paciência e eficiência que eu desconhecia. O governo deu uma semana para tudo voltar ao normal; eu dei uns dois, três dias.

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Fenghuang

A moça da agência municipal de turismo disse que nunca viu tanta destruição, mas me ajudou com os horários de ônibus como se nada estivesse acontecendo. À luz de velas, pediu desculpas pelas condições da cidade (!), deu uma garrafa de água mineral (!!) e disse que Fenghuang me esperava em uma próxima oportunidade.

De volta ao hotel, a tia-dona (que não falava inglês) foi comigo até o outro lado da cidade para ajudar com a passagem de ônibus. Comprei um pão doce de presente na hora do almoço e usei o tradutor do telefone para explicar que era uma forma de retribuir a gentileza, pois ela também havia prometido me levar de moto até a rodoviária. Fez não apenas isso, como também carregou minha mochilona até o ônibus e só sossegou quando me viu instalada na poltrona, com o moneybelt preso na cintura (e não dentro da bolsa, como estava).

Nos despedimos. Quando eu fazia uma retrospectiva dos últimos acontecimentos, refletindo sobre a gentileza e a generosidade que venho presenciando desde que cheguei na China, essa mulher reaparece na escada do ônibus com um saco cheio de guloseimas, no melhor estilo mãe Dalva/Vó Zeza.

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Sobrinha e tia, braço operacional da família Zampier na China

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Bolo, sopa, biscoito, chá, pirulito e até guardanapo <3

Se não for assim e eu só estiver dando sorte, pode parar que essa amostragem já está muito grande.

p.s.: generalizar nunca é bom, mesmo para o bem. Por isso registrei a informação do menino de Cingapura, que disse que com ele as coisas não são bem assim.

p.s2: para quem não é meu contato no Facebook, segue um resumo do que aconteceu no primeiro dia de China.

1) taxista da fronteira não só me deixou na rodoviária. Desceu comigo, ajudou a achar o ônibus, a comprar o tíquete e a despachar a bagagem. Só foi embora quando me viu embarcada.

2) dono da loja de celular que fechava às 20h30 ficou até 22h comigo na loja, até conseguir me arranjar uma internet. No final ele e esposa pediram para tirar foto comigo porque nunca viram uma estrangeira.

3) minha coca-cola caiu da bandeja e espatifou no chão da lanchonete. O moço da mesa ao lado me comprou uma nova e disse thank you.

4) não tinha mais bilhete de trem (10h de viagem, noturno) e ia viajar sentada no chão. Uma família se espremeu na cadeira para me dar lugar (um deles com uma jaqueta do Brasil, ainda sem saber de onde eu era). Me arrumaram uma bateria extra para carregar o telefone que escreve essa mensagem.

5) Estava sem trocado para o ônibus circular (aqui não tem bilheteiro) e o motorista me deixou andar de graça.

Os dias seguem e a lista não para, é impressionante.


Chegando

Não precisava nem da escultura pontiaguda depois da ponte da imigração; a reviravolta que estava por vir dispensava introduções. Motos foram substituídas por Cherys, as prateleiras agora transbordam industrializados em plastiquinhos gosmentos supertemperados, luzes e vozes ganharam ritmo estroboscópico.

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Verdadeira “patitas”

Rodovias assumiram status de super obras de engenharia. Pistas duplas expressas às vezes se abrem em túneis sequenciais, às vezes são suspensas por pilares para não incomodar as montanhas. A cidade considerada média têm três milhões de habitantes. Passo mais tempo tentando ir de um lugar para o outro que nos destinos em si.

Nos últimos meses convivi com famílias cheias de crianças, muitas multiplicadas à espera do primeiro menino. Agora estou com a geração de filhos únicos dos filhos únicos, aqueles que não têm irmãos nem tios nem primos, focos convergentes da ansiedade dos pais e dos avós. Foi-se o tempo das crianças soltas pela rua protegidas pelo acaso; aqui cada olhinho puxado é ostentado e mimado como o mais valioso bibelô, com o devido efeito social que isso traz.

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Aqui o anjinho do chafariz é de verdade e segura uma escova de dente

Assim como no Brasil, pouquíssimos falam inglês, mas como improvisar com os rabisquinhos do mandarim? Até a pronúncia das ruas e das cidades é diferente, com o sério risco de cair no lugar errado por engano.

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Às vezes nem a tradução dá jeito

Cafés e baguetes sumiram das ruas e agora é difícil achar uma variação dos restaurantes oleosos de macarrão/arroz frito. Banheiro só de agachar. Também sumiram as mulheres que se cobrem dos pés a cabeça pelo conservadorismo e pela “obsessão branca”. Aqui elas sobem nos tacones a bordo de roupas curtíssimas para comprar pão, para cuidar das crianças, para uma longa viagem de trem. Os homens suspendem a camiseta com a pança à mostra, mas hoje o moço vendia celular na loja do centro sem camiseta mesmo, só de short.

Bem-vindos à China.


Agora sim

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Eu e “Ma’frend”, alvo favorito das beijocas

Depois do fiasco no norte da Tailândia, prometi que tours guiados para vilas de minorias étnicas nunca mais. E foi justamente para suprir artificialmente esse lado que tirei uma tarde em Hanoi para conferir o Museu de Etnologia, dedicado às tribos do Vietnã. Mas o tiro saiu pela culatra. Concebido em parceria com a França, o museu é tão maravilhoso que deu ainda mais vontade de estar lá ao vivo.

E também teve a recomendação de um casal de holandeses que conheci semanas antes. Apesar de o circuito Sapa ser bem batido, disseram que existe uma ONG lá promovendo a feliz associação entre educação e turismo, argumento final para me decidir.

O tour começou com um enxame de mulheres hmonng e seus chapeuzinhos coloridos rondando o grupo ao som de “buy something”, “you some shopping”. Aparentemente as senhorinhas desconhecem negativas e nos seguiram por horas arrozal adentro. A dupla de professoras australianas não aguentou e compra bolsas. Eu abracei e beijei cada vez que as mãozinhas se estendiam na minha direção oferecendo algo. Assim continuamos amigas dividindo guarda sol e jogando conversa fora (o nível de inglês é incrível).

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A menina nos recebeu na casa onde iríamos passar a noite – os pais estavam na vila comprando o banquete que seria preparado no fogão a lenha mais tarde. Depois do chá, fui ver os porcos, visitei a casa onde vivem a família da irmã e a mãe da anfitriã, pulei cama elástica improvisada com as garotas da vizinhança em uma árvore seca no chão ao som de cantigas Vietnã-Brasil. Tomei vinho de arroz com as comadres (a garrafa sempre embaixo da mesa), e já explodindo de comida boa e de gargalhadas, fui levada a um banho tradicional com ervas medicinais em infusão. Essa noite dormi o melhor dos sonos, com barulho de mato passando pelas finas paredes da casa.

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Depois da pulação e da cantoria

No dia seguinte, no caminho entre novos arrozais entalhados nas montanhas, a guia contou que sua amiga sumiu há dois anos, provavelmente raptada para trabalhar como prostituta. As australianas fizeram o dever de casa e contaram que o mesmo destino espera outras meninas da região. Estar ali contribuindo com a educação delas passou a ter um novo sentido.

Com mais esse retalho do caleidoscópico Vietnã, me despedi rumo à China.

******

Protagonista da guerra que levou seu nome, o Vietnã curiosamente é o país que menos lembra esse passado de privação e de sofrimento. A sensação é de que tudo já virou peça de museu, inclusive o líder máximo da vitória, Ho Chi Minh, que repousa embalsamado em um caixão de vidro aberto a visitação.

****

p.s.; realmente são incríveis as cavernas do parque nacional de Phong Nha (lembra da deixa em Kong Lor, no Laos?), e a Baia de Halong merece o título de maravilha do mundo. Mas aqui o humano vale mais que o cênico, por isso Sapa.


Rapidinha do trânsito

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Vaza daí que a calçada é nossa, fia

O menino da loja de crepe, sobre o trânsito de Hanoi: “Atravessa sem olhar para os lados que dá tudo certo”.

As ruas da Ásia vivem em flerte com o caos, mas o Vietnã e seu exército de motos passaram da régua. Eu nunca vi tanto motorista ziguezagueando, cortando, triscando, e o interessante é que nada colide e tudo flui, meio ballet pós-moderno, sabe. Emoção é pegar carona com um mototaxista de Saigon e desacreditar que realmente há espaço para vocês naquele cruzamento.

Se pedestre, o problema não se resume a atravessar (imagina isso na herança colonial francesa de ruas largas ). Vai andar na calçada? Ah, não vai, porque calçada é o lugar de estacionar a moto. Vai andar espremido na sarjeta? Também não vai – se não é um carrinheiro de fruta encatracando por trás ou bicicleta topando na contramão, é o cara tirando a moto da calçada bem na hora que você está passando. Estilo Angry Birds: em que milisegundo devo sair para colidir com aquela ali?

Aqui a tese do “quem vem atrás é sempre o responsável” é mantra mais respeitado que letras miúdas de seguro. Ninguém olha antes de entrar na pista ou de ultrapassar, mas pasmei quando vi uma criança pequena disparar para pegar uma bola na rua inflamada e nada acontecer.

Repeti sem a bola e deu certo. Menino do crepe sábio.


Os vietnamitas

O Vietnã tem motivos de sobra para te trazer aqui, mas o que me deixou intrigada mesmo foram eles, os vietnamitas. Para ter uma ideia, precisei de um mês viajando de sul a norte para começar a pegar o jeitão deles e otimizar nossa interação, que hoje é uma das mais legais dessa viagem.

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Fazendo amigos em Hoi An

É claro que tem gente de todo tipo em todos os lugares, mas depois de nove meses na estrada, percebi que cada país tem uma média de comportamento. Mas não no Vietnã, porque aqui você nunca sabe o que vai ser. Conheci dos mais doces e amigáveis aos mais rabugentos e sacanas, uma relação que vai do encantamento ao estranhamento todo dia. E é aí que está a graça.

Cena 1

Saigon. Estava sozinha esparramada em um dormitório enorme para quatro pessoas. Ao voltar na terceira noite, a gerente toda preocupada pergunta se quero mudar para um quarto só meu. É que três homens chegaram e eu iria perder minha privacidade (situação mais que esperada para os pobretões da categoria quarto dividido). E quanto custaria o pequeno cuidado? Nada. Ela achava certo assim.

Cena 2

Hoi An. A graciosa jovem tinha oferecido cadeira de praia gratuita na sua barraca, mas depois disse que todos que não comeram teriam que pagar 5 reais extras. E o suco, que custava 3 reais, agora era 4,5 (o preço não constava no cardápio). Quando os indignados resolveram sair arcando só com o justo, os empregados grudaram nas bicicletas decididos a não deixar ninguém passar. Meia hora de confusão e gritaria depois, um local enfurecido ameaça jogar seu sapato no grupo – o que no budismo não é só uma agressão, como também uma das mais altas ofensas.

***

Os vietnamitas são das personalidades mais autênticas do Sudeste Asiático e aparentam não dar a mínima para a opinião alheia. Sinto que muito dessa autoestima multiplicou quando botaram França e Estados Unidos para correr. Conhecer de perto a obstinação e o patriotismo desse povo, que chegou a morar anos em túneis como tática de guerra, trabalhando de noite nos arrozais para guerrear de dia, reciclando armas usadas enquanto choravam luto, explica muita coisa.

Pense em uma gente intensa, que fala alto, ri alto (mais que no Brasil, sim é possivel). Já levei uns tapões no braço de senhoras banguelas sorridentes no meio da rua e até hoje não entendi porquê. Esses dias começou uma gritaria no ônibus e os estrangeiros nos entreolhamos já esperando a briga, mas o que saiu mesmo foram sonoras gargalhadas. Outra tarde passeava com uma amiga no mercado e um grupo de vendedoras encasquetou com o “airbag“ da moça. Já acostumando com o modus operandi local, entramos na onda e acabamos em uma histeria  feminina coletiva, elas pegando nosso peito para comparar tamanhos e tudo.

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Dar banho de balde no cachorro na frente do seu comércio, por que não?

Geralmente, quando eles vão com a sua cara, não tem para ninguém. Eu, brasileira em época de Copa no país dos enlouquecidos por futebol, então… pff, dei muita sorte. Mas atenção: quer azedar um entrosamento que vai indo bem, só falar alguma coisa do contra (guarde a negativa para quando realmente precisar). Depois não diga que não avisei.


Nem vem

Quando eu digo Vietnã, que imagem te vem na cabeça? O tradicional chapéu-cone deslizando entre rios em bruma? Carpetes de bomba e cenas de Nascido para Matar? Pois olha, tem semanas que estou aqui e não paro de me surpreender com o país que vai com qualquer coisa, menos estereótipos.

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Ho Chi Minh City

As “duas“ capitais, Hanoi e Ho Chi Minh City, parecem não ter superado a divisão norte comunista/sul capitalista – e lá se vão 40 anos de unificação. A primeira é uma quase China, oriental kitsch dos pés à cabeça. Já a ex-Saigon foi rebatizada com o nome do líder vermelho para deixar de ser metida a ocidental, mas pelo jeito não funcionou muito não. E as irmãs adoram falar mal uma da outra, tipo Ruth e Raquel.

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Hanoi

No delta do Rio Mekong, o crash entre comunidades ribeirinhas e século 21 resultou em uma quantidade enorme de gente esparramada por todos os lados. Horas de ônibus entre uma cidade e outra e não vence a fila interminável de casas e lojas, muitas estacadas em cima da água.

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Can Tho

Dalat, com suas gordas bordas de jardins e estufas variadas, mostra que Vietnã rural e plantações de arroz nem sempre são sinônimos absolutos. E o que falta de charme na robótica praia de Nha Trang, completamente rendida à invasão de turistas russos, sobra na linda Hoi An, antigo centro portuário medieval. Menos de 50 quilômetros dalí e o Vietnã vira um Angkor B nas ruínas milenares de My Son, devastadas mais por bombas que pelo tempo. Ao norte fica Hue, última morada da última dinastia local, atropelada pela nova ordem mundial no pós-Segunda Guerra.

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Um dos imperadores de Hue, na época em que ser rei era legal

A então ultrabélica área central do país, batizada zona desmilitarizada (DMZ) por algum espirituoso, hoje ostenta orgulhosa seus túneis-esconderijos, campos de batalha e artigos de guerra em museus. Pelo oeste corre a trilha Ho Chi Minh, sequência de morros e montanhas que culmina com a maior caverna do mundo, Son Doong, no parque nacional de Phong Nha. Quem não tem 3 mil dólares para conhecê-la pode se refastelar com as outras cavernas e rios da região, das mais lindas do país.

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Túneis de Vinh Moc na antiga DMZ

No norte, a requisitada Baía de Halong e suas famosas formações rochosas cravadas no mar fazem jus ao fluxo intenso de turistas em cruzeiros sempre lotados. E já tem um tempo que a região de Sapa e seus terraços de arroz esculpidos nas montanhas deixaram de ser o remoto Vietnã reservado às minorias étnicas. Hoje é quase sinônimo de trekking e de homestay.

Resumindo, não me venham perguntar o que escolher em poucos dias por aqui. Não dá, não dá.

***
p.s.: estava encafifada com o tanto de gente nesse Vietnã, povoadíssimo que eu nem imaginava. Fui pesquisar e deu isso: com uma área 25 vezes menor que a do Brasil, a população é só duas vezes menor que a nossa.

p.s.2: perdido no mapa? Confira minhas andanças em tempo real aqui!

p.s.3: já deu uma olhada no Flickr na coluna aqui do lado? Os álbuns estão tinindo de novos!