O pior dos vermelhos

Todo fim de tarde a mesma coisa. Depois de rodopiarem incansáveis pela fenda escura, milhares de morcegos começam a deixar a caverna pontualmente às 17h10. A nuvem negra vai saindo em fluxo continuo para algum lugar nos arredores de Battambang, cidade no noroeste do Cambodia. São tantos que a revoada dura mais de hora.

Percebo uma movimentação do meu lado. Um guia/motorista de tuk tuk tenta explicar o curioso fenômeno para seus dois clientes, mas eles parecem mais interessados em fotografar que em conversar. Percebendo o quase monólogo, vou puxando assunto.

E para onde eles vão? Quantos são? O que eles fazem de noite? Quando voltam? Alguns não voltam. São “pescados” em redes montadas pelo pessoal do mercado, que repassa a iguaria na manhã seguinte. E você come morcego? (Cara de nojo) Não! Claro que não! Mas já comeu.

Aqui a conversa vira um despejo de informações em inglês quebrado entre gesticulações e olhos mareados, perdidos em algum lugar. Ele era de Phnom Penh. Tinha 20 anos quando os soldados do Khmer Rouge invadiram a capital do Camboja expulsando os moradores para o campo. Não ficou ninguém, a cidade virou fantasma. Foi para a colônia de trabalho no campo, as pessoas passavam fome e comiam qualquer coisa, inclusive morcegos e ratos. Roubavam comida quando não tinha jeito.

“- Roubei comida”, confessa.

Famílias foram separadas, festas e casamentos eram restritos ou impedidos, gente levada sem motivo que nunca mais voltou. Muitos não viam mais sentido em viver e pulavam da árvore com um pano amarrado no pescoço. “Eu comia rato e morcego, mas depois nunca mais”. O que você come hoje? “Porco, vaca, frango, eu gosto de frango. Ah, e vou ao banheiro todo dia hoje (bate na barriga). Naquela época uma vez a cada cinco dias, porque não tinha comida né”. Riu.

Os clientes reaparecem pedindo outro lugar para observar melhor os morcegos. Apertamos as mãos, pergunto seu nome, sua idade, 59. Desejo um bom dia, foi um prazer conhecê-lo.

De volta ao tuktuk, repasso nossa conversa e tento focar na nuvem de morcegos que abre e fecha voando ao longe. Viro o rosto para não encarar os outros passageiros e engasgo com um choro urgente, mas não o último.

***

No dia seguinte saí de bicicleta pela cidade e acabei em um monastério usado como prisão nos tempos do Khmer Rouge. Hoje é um monastério de novo, mas as lembranças daquela época estão gravadas em placas de concreto em um memorial na parte dos fundos. Elas falam sozinhas.

20140612-182037-66037331.jpg(Os torturadores abriam o peito das vítimas, removiam os fígados e canibalizavam seus órgãos)

20140612-182041-66041043.jpg(O Khmer Rouge esvazia o hospital)

20140612-182041-66041450.jpg(O Khmer Rouge confisca todas as bicicletas da população)

20140612-182040-66040385.jpg(Durante os interrogatórios, as vítimas são obrigadas a admitir e a confessar qualquer crime imposto pelos carcereiros)

20140612-182042-66042159.jpg(Homens e mulheres são sistematicamente escolhidos para serem mortos como exemplo para os outros. Eles diziam: Se mantermos vocês não há ganho, se matarmos não há perda)

20140612-182037-66037749.jpg(Sacos plásticos são usados para sufocar as vítimas durante os interrogatórios. Afogamento é usado para assustar as vítimas)

20140612-182042-66042810.jpg(Crianças entre 3 e 9 anos são tiradas dos seus pais)

20140612-182038-66038465.jpg(Templo budista é usado como prisão e profanado)

20140612-182040-66040706.jpg(As crianças são mortas enquanto os pais assistem e depois eles são executados)

20140612-182036-66036937.jpg(As pessoas são forçadas a trabalhar em batalhões agrícolas)

20140612-182038-66038829.jpg(Os torturadores extraiam as unhas das vítimas durante os interrogatórios)

20140612-182039-66039741.jpg(A ponta afiada de uma folha de palmeira é usada para cortar o pescoço da vítima)

20140612-190607-68767695.jpg(Mulheres são estupradas e mortas)

O mais chocante é que isso tudo aconteceu ontem, entre 1975 e 1979. Depois do que vi e ouvi em Battambang sempre tenho o sorriso mais terno reservado para qualquer cambojano acima de 40 anos, os sobreviventes do horror do horror.

Falo mais sobre o Khmer Rouge no próximo post.

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13 Comentários on “O pior dos vermelhos”

  1. Cecília disse:

    Ouvi dizer que foram os vietnamitas que ajudaram os cambojanos a expulsar o Khmer, isso procede?

    É muito, muito triste mesmo 😔

  2. Cecília disse:

    É assustador mesmo o que o Khmer Vermelho fez a esse país, até hoje eles têm deficit populacional, principalmente masculino. Um país que foi totalmente devastado e ainda não conseguiu se reerguer.

  3. Mara Garcia disse:

    Realmente este mundo tem o que nem se pode imaginar.
    Não parece ser verdade…….. mas, é né???
    Abraços e boa viagem.

  4. Aline disse:

    Prefiro nao comentar…. =/

  5. Débora disse:

    mas agora uma pergunta mais trivial: o que achou da carne de morcego?

  6. Débora disse:

    Nossa Deb………. Que tragédia. Por que tamanha brutalidade, gente… Humanamente falando, independentemente de disputas de poder, por que tamanha brutalidade? Chega revirou o estômago.

    • deborazampier disse:

      Pois é Deb, exatamente o que eu me perguntava, porque isso com pessoas do seu próprio país? Não eram nem invasores, eram os próprios cambojanos fazendo isso. Realmente… Vou tentar explicar um pouco mais como as coisas chegaram a esse ponto no próximo post, mas claro que tudo continuará sem explicação. Bjbj


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