Senta

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Esses dias mencionei aqui como a história recente do Laos vem mexendo comigo. Hoje é dia de falar mais disso.

A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945 com dois caroços entalados na goela: a Guerra Fria e o futuro das colônias tardias na África e na Ásia. Com pouco mais de 1 milhão de habitantes na época, grande parte iletrados ocupando a área rural, quis o destino que o Laos sofresse os efeitos das duas coisas, seguida e interligadamente. Resultado: 30 anos extras de crueldades e de chagas sociais que custam a curar.

Fracassados os esforços para tentar segurar a colônia, a França desocupou o Laos em 1953, não sem antes deixar um rastro de sangue. Longe de selar a paz, o evento abriu portas para um futuro ainda pior. O poder monárquico instalado encontrou resistência de comunistas influenciados pelos vizinhos Vietnã e China. Foi o suficiente para atrair a atenção e a antipatia dos Estados Unidos, então obcecados contra a expansão vermelha na Ásia. Com o respaldo do governo local, os EUA viraram sua artilharia para as áreas montanhosas ao leste do Laos. Tinham até sua própria base aérea escondia por lá, de onde saiam missões a cada oito minutos nos períodos mais movimentados.

Mas enquanto a Guerra do Vietnã comia solta na televisão, no supostamente neutro Laos tudo era segredo (devidamente encoberto pelos simpatizantes do status quo). Segundo consta, o país tornou-se o mais bombardeado per capita do mundo entre as décadas de 1960 e 1970.

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O fracasso americano no Vietnã desencadeou a suposta paz civil no Laos logo em seguida. Os comunistas declararam a revolução em 1975 e permanecem até hoje no poder. A guerra acabou, mas o ritmo rural do Laos, onde o tempo corre em outro passo, trouxe mudanças pouco expressivas nos últimos 40 anos.

Exposições e documentários lembram que explosivos hibernantes ainda matam e aleijam, alguns casos por acidente, outros porque miseráveis procuram metal para vender a preço de ouro. O banco da pousada, a cerca do restaurante, o barco, são cascas de bombas adaptadas. A moda local tem fortes referências militares (demorou até entender que aqueles camuflados na rua eram civis). O prazer de explorar a deslumbrante natureza vira certa apreensão quando uma equipe anti-bomba aparece para limpar a área. Dá um nó na garganta ver enormes buracos redondos enfiados entre campos verdejantes e imaginar como aquilo foi parar ali. Se tinha alguma casa, se alguém morreu. Se o cenário parecia com os desenhos hoje expostos no museu, cheios de tinta vermelha e de cabeças degoladas.

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As pessoas do Laos são amigáveis, mas carregam um quê de sofrimento e de cansaço ainda fresco. Um rapaz me conta que seu pai escolheu o lado errado e lutou com os Estados Unidos na época. Pergunto se é verdade o que vi em um documentário – que o governo persegue e mata esses clãs até hoje como retaliação. Ele dá um sorriso amarelo, faz que não com a cabeça e desconversa, mas os campos de refugiados na Tailândia aparentemente dizem o contrário.

Em outro documentário, uma senhora contava aos prantos que os habitantes do Laos foram massacrados por um inimigo que sequer conheciam, nem antes nem durante o conflito, quando só choviam bombas do céu. Outro dia fiquei confusa ao ver um senhor usando boné com a bandeira dos Estados Unidos.

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Autodeclarado o mais pobre do Sudeste Asiático, hoje o país recebe ajuda financeira de várias potências econômicas e organizações, com parcerias amplamente divulgadas em placas e cartazes.

Escaldada com as maldades do mundo, me pergunto se é caso de devida culpa passada ou de escusos objetivos futuros. O povo do Laos não merece mais sofrimento.

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4 Comentários on “Senta”

  1. Marília disse:

    Nossa, muito triste. Confesso que também sabia pouco ou quase nada sobre o passado desse ligar tão lindo e manchado de sangue. Obrigada por nos trazer todas essas impressões pessoais e informações históricas. Bjo bizzie linda!!!

  2. Aline disse:

    Muito triste essas histórias! confesso que não sou muito ligada ( e nem gosto) mas sei que é importante saber tudo isso.. até pq o passado se faz presente! ( é a velha frase: não gosto de história, coisa antiga! rs) acho que é o jeito de contar ( e isso vc faz muito bem! amo!!! Beijão, Débora!! tenho aprendido muito por aqui.

    • deborazampier disse:

      Verdade Aline, história pode parecer um pouco chata no livro, mas ter a chance de ver o efeito de coisas passadas ao vivo no presente faz tudo ter mais sentido. Espero ter conseguido passar um pouco para vocês! Bj


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