A fé e o Pico do Adão

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As pernas continuam bambas e doloridas 48 horas depois. Além delas, as fotos denunciam que estive mesmo lá, embora as lembranças daquela madrugada estejam embaralhadas como um sonho insano que recusa ser esquecido.

Dentre as milhares de montanhas do mundo, uma muito especial fica encrustada no centro-sul do Sri Lanka. O nome preferido pelos turistas, Adam’s Peak, não é o mesmo conhecido pelos locais, Sri Pada, mas ambos dizem algo sobre o apelo religioso do lugar venerado por milhares de sinhaleses a cada ano.

Entre dezembro e janeiro, budistas, hindus, muçulmanos e cristãos rumam para a montanha em peregrinação, cada qual justificando a importância do lugar com sua crença. No alto do cume a 2,2 mil metros, estaria a pegada de Adão, Buda, Shiva ou São Tomás, a gosto do fiel.

O objetivo da coisa toda é vencer os mais de 10,4 mil degraus entre subida e descida, o que parece inviável logo no primeiro quarto do desafio. Só a escalada leva 4 horas e meia, e muitos preferem cumprir o percurso durante a madrugada. Discípulos do Lonely Planet vão pela experiência turistona de ver o sol nascer do cume e uma suposta sombra misteriosa. Mas garanto que escalar o Adam’s Peak é tudo, menos isso.

20140117-015530.jpg O verdadeiro arrebatamento é presenciar a devoção que não poupa bebês de colo ou senhoras octogenárias, muitas de pés descalços para aumentar o desafio. Pelo caminho, pessoas passando mal ou retiradas de maca, a cara de sofrimento de crianças e adultos chorando porque não, gente, não dá mais. Mas eles sabem que precisam continuar.

Eu, que não tenho fé em pegada nenhuma, me agarrei à fé em mim mesma para tentar coordenar as pernas-gelatina rumo ao eterno “mais um degrau”. E quando você acha que está acabando o que já tinha concebido como infinito, a mudança para degraus ainda mais íngremes fazem lembrar do alerta do guia: ainda faltam 1500. Só completei os últimos lances depois de um transe induzido via Ipod.

E se o esforço físico parecia insuportável, a paulada psicológica viria mesmo já no pesudo-Éden sobre as nuvens. Ali, milhares de pessoas exaustas, sonolentas e suadas se amontoavam para venerar a pegada mágica protegida sob um telhadinho de alumínio.

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Depois de uma hora prensada na fila entre os locais, o sol nascente derretendo a pele sob a jaqueta, sucumbi e comecei o caminho de volta. Entendi que só Adão/Shiva/Buda/São Tomás explicam aquilo.

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4 Comentários on “A fé e o Pico do Adão”

  1. Mara Garcia disse:

    A Fé neste caso “leva a montanha”.
    Acontecimento guardado para sempre na memória…… e nas pernas.
    Boa viagem no Sri Lanka.
    Abraços.

  2. Patrícia Colela Doyle disse:

    Corajosa!

    • deborazampier disse:

      O pior é que eu nem tinha uma noção exata da dificuldade porque os guias dão uma amenizada na descrição, mas uma vez lá, não tem o que fazer senão ir hehe bj


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