Agora sim

20140715-224800-82080930.jpg
Eu e “Ma’frend”, alvo favorito das beijocas

Depois do fiasco no norte da Tailândia, prometi que tours guiados para vilas de minorias étnicas nunca mais. E foi justamente para suprir artificialmente esse lado que tirei uma tarde em Hanoi para conferir o Museu de Etnologia, dedicado às tribos do Vietnã. Mas o tiro saiu pela culatra. Concebido em parceria com a França, o museu é tão maravilhoso que deu ainda mais vontade de estar lá ao vivo.

E também teve a recomendação de um casal de holandeses que conheci semanas antes. Apesar de o circuito Sapa ser bem batido, disseram que existe uma ONG lá promovendo a feliz associação entre educação e turismo, argumento final para me decidir.

O tour começou com um enxame de mulheres hmonng e seus chapeuzinhos coloridos rondando o grupo ao som de “buy something”, “you some shopping”. Aparentemente as senhorinhas desconhecem negativas e nos seguiram por horas arrozal adentro. A dupla de professoras australianas não aguentou e compra bolsas. Eu abracei e beijei cada vez que as mãozinhas se estendiam na minha direção oferecendo algo. Assim continuamos amigas dividindo guarda sol e jogando conversa fora (o nível de inglês é incrível).

20140715-225104-82264710.jpg

A menina nos recebeu na casa onde iríamos passar a noite – os pais estavam na vila comprando o banquete que seria preparado no fogão a lenha mais tarde. Depois do chá, fui ver os porcos, visitei a casa onde vivem a família da irmã e a mãe da anfitriã, pulei cama elástica improvisada com as garotas da vizinhança em uma árvore seca no chão ao som de cantigas Vietnã-Brasil. Tomei vinho de arroz com as comadres (a garrafa sempre embaixo da mesa), e já explodindo de comida boa e de gargalhadas, fui levada a um banho tradicional com ervas medicinais em infusão. Essa noite dormi o melhor dos sonos, com barulho de mato passando pelas finas paredes da casa.

20140715-230336-83016848.jpg
Depois da pulação e da cantoria

No dia seguinte, no caminho entre novos arrozais entalhados nas montanhas, a guia contou que sua amiga sumiu há dois anos, provavelmente raptada para trabalhar como prostituta. As australianas fizeram o dever de casa e contaram que o mesmo destino espera outras meninas da região. Estar ali contribuindo com a educação delas passou a ter um novo sentido.

Com mais esse retalho do caleidoscópico Vietnã, me despedi rumo à China.

******

Protagonista da guerra que levou seu nome, o Vietnã curiosamente é o país que menos lembra esse passado de privação e de sofrimento. A sensação é de que tudo já virou peça de museu, inclusive o líder máximo da vitória, Ho Chi Minh, que repousa embalsamado em um caixão de vidro aberto a visitação.

****

p.s.; realmente são incríveis as cavernas do parque nacional de Phong Nha (lembra da deixa em Kong Lor, no Laos?), e a Baia de Halong merece o título de maravilha do mundo. Mas aqui o humano vale mais que o cênico, por isso Sapa.