Annapurna Parte 2 – “Sozinha” (eterna)

A despeito da eremita que habita em mim, jamais cogitei desbravar o Annapurna sozinha. Me tranquilizava o discurso dos demais mochileiros sobre a facilidade para conhecer gente ainda no aeroporto de Kathmandu.  Mas os dias foram passando e nada. Só aí percebi que nenhum deles tinha passado pela baixa temporada para contar história.

Na madrugada daquele 11 de fevereiro, estava muito mais preocupada que feliz. Tinha passado os últimos três dias em Pokhara vagando de café em café, estudando o livro mágico e os mapas, esperando aparecer, quem sabe, uma companhia de última hora. Mas a cidade constantemente invadida por enxames de mochileiros estava às moscas.

Depois de horas rondando pelo quarto, estanquei a autovitimização ao entoar o mantra que vem me acompanhando desde o começo da viagem: não criar expectativas com situações que extrapolam meu próprio poder de ação e de decisão. Transplantado para a vida real, esse conceito implica em seguir confiante, e ao primeiro sinal de dificuldade insuperável, retroceder com a certeza de que fiz o que pude. No dia seguinte, peguei o ônibus já com a serenidade monástica que deu o tom do resto da jornada.

Dos 13 dias efetivos de caminhada, estive sozinha em apenas quatro e meio – três deles por opção, quando matutava sobre a vida já na descida. A maior parte da trilha é cansativa, porém não perigosa, com espaço suficiente para passar cavalos e bicicletas (isso quando ela não coincide com as estradas locais). O único requisito é caminhar – nada de pulos, agachamentos ou escaladas com a mão, que acionariam o botão eject sem dúvida.

Hoje analiso que o trekking solitário é altamente possível, embora não 100% recomendável. Sempre existe a chance de torção/queda, o que pode complicar porque sinal de telefone inexiste ali para pedir socorro. Contando só com o livro, também havia a possibilidade de me perder, mas o risco foi neutralizado com o empurrãozinho da gente local. Nos momentos de maior dúvida ou dificuldade eles apareciam do nada para apontar o caminho certo, jogar pedras nos cachorros prestes a avançar em mim ou falar quanto tempo faltava para a próxima vila.

Mesmo ciente dos perigos da aventura solo (cogitei até ataques assassinos de raposas e de leopardos da neve, vejam bem), foi justamente essa condição que permitiu alguns dos momentos mais marcantes dessa temporada. Porque a natureza nesse setor pontiagudo do planeta é tão esplendorosa que chega a dar nó na garganta, e não foram poucas as vezes em que me peguei falando em voz alta com as montanhas, elogiando tamanha formosura. Também não foram poucas as vezes que me perguntei que diabos eu,  essa m******* insolente, estava fazendo plantada sozinha no meio dos Himalaias.

Mas não tive medo. Depois de dias explorando seus meandros, mergulhada em silêncio contemplativo, senti que era bem-vinda ali.

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p.s.: Tom, Sam, Andrew, Johannes, Max e Dog, obrigada pela ótima companhia e pelo apoio nas longas horas de caminhada. E agradecimentos mais que especiais aos meus kiwis super queridos Asher e Ben, os caras que estavam lá quando mais precisei.

p.s.: Tom, Sam, Andrew, Johannes, Max and dog, thanks to the great time and support during the long walking hours. And very special thanks to my super dear kiwis Asher and Ben, the guys that were there when I needed most.


Annapurna Parte 1 – Mirabolante

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Minha favorita, vista de Pokhara.

Ao longo dos últimos meses na estrada, o Nepal invadiu meu imaginário como a maior experiência de vida que estaria por vir. A idealização foi sendo alimentada por mochileiros que apareceram pelo caminho, em relatos carregados de montanhas, rios e vilarejos. Exploraram, esperaram, insistiram, para depois dizer com a satisfação de quem se permitiu o solavanco: “sim, eu estive lá”.

Já em Kathmandu, meu primeiro desafio foi escolher que rumo tomar. Estrela absoluta, o Everest fica no nordeste do Nepal e tem um circuito super popular de ida e volta ao seu acampamento de base (é de lá que os montanhistas sérios partem para a escalada rumo ao topo). Segundo fotos e depoimentos, o cenário dramático consiste de montanhas, rochas e gelo.

A região do Annapurna, no centro norte, também tem seu roteiro de ida e volta para acampamentos de base, sendo que um deles vai para a minha montanha favorita, Machapuchare (talvez o amor venha da semelhança com a montanhazinha da Paramount, pode googlar).  Mas o trekking que me ganhou desde o início foi o Annapurna Circuit, mais longo, que abraça 200 quilômetros da região.  O combo inclui inúmeras vilinhas, cenário mutante de verdes vales a picos nevados e o desafio de subir a 5,4 mil metros com a possibilidade de fazer a volta por um caminho diferente.

Mas ainda tinha um bônus de fase. Na Índia, soube de um esquema que permitia cumprir o AC independentemente, sem precisar contratar guia. Um belga apaixonado pelo Nepal deixou marcas pelo circuito indicando o caminho, e descreveu todo o trajeto em um livro que está disponível gratuitamente para download (mas que relativamente pouca gente conhece, segundo minha própria experiência). Sabe uma irresistível caça ao tesouro da vida real procurando sinais entre florestas e montanhas? Isso.

Mas ainda tinha o fato de estar sozinha, situação que ninguém tinha me descrito até então.

Isso deixo para o próximo post.