Rio??

Saindo do Parque Lage, estranhei quando a cobradora do ônibus falou para ter cuidado. Sempre achei que o Rio é temido mais que o necessário por quem é de fora, e embora não desconheça fatos e estatísticas, nunca concebi nitidamente a ideia de que aquelas mesmas ruas frequentadas por figurantes em eterno clima de férias poderiam representar irremediável perigo. Mas aí lembrei quando o pipoqueiro do Arpoador me contou, dois dias antes, que precisou ficar agarrado na carrinho quando a coisa ficou feia por ali mais cedo.

Domingo, cerca de 16h de um esplêndido dia de sol, arrumei a tralha para começar o caminho de volta sentido Leblon-Leme. Foi em algum momento entre Ipanema e Copacabana que vi a bizarra cena de meninos mirrados puxando coisas e correndo alucinadamente. “Tá, você está no Rio, mais hora menos hora ia acontecer”, pensei, assaltada por uma mistura de adrenalina, impotência, mas afinal, alívio por estar protegida dentro daquela caixa widescreen com ampla visão de tudo. Ainda assim me espantei ao ver civis enfurecidos em disparada atrás dos moleques, mentalizando para que tudo ficasse bem.

Poucos metros depois, outra correria, dessa vez com policiais envolvidos. E eu que estava aliviada porque o Estado cuidaria da situação agora, senti o sangue faltar quando começou uma gritaria de ATIRA ATIRA e um deles puxou a arma enquanto corria na rua lotada. Dobraram a esquina.

Mais alguns metros e o tumulto tornou-se permanente. Mulheres e crianças chorando, moleques deslizando por entre os carros, gente indignada, mais adiante outra correria, outro grupo de civis perseguindo meninos magrelos, carros da polícia atravessados na pista, trânsito parado – vários ônibus deixaram de informar as linhas para não abrirem as portas. Eu sei gente, que a violência existe e que arrastões no Rio são frequentes, mas a sensação era de que o efetivo de policiais não seria suficiente para controlar o que quer que estivesse explodindo ali, em plena Av. Nossa Sra. de Copacabana.

Reparei que alguns meninos estavam entrando nos ônibus parados no engarrafamento e achei melhor descer, me esconder em algum comércio mas todos fechados, em alguma rua mas não sabia qual. Ali na frente alguém começou a golpear uma janela de ônibus e implorei para entrar em um hotelão estrelado com outros turistas. “Se isso está acontecendo no inverno, o que virá no verão”, previu uma funcionária, que disse ter começado a andar com spray de pimenta na bolsa.

Pensando em todas as camadas que levaram a esse estado de coisas, acho que as faltas são tantas, as responsabilidades tão negligenciadas, os valores tão invertidos e a empatia com o próximo tão limitada que sinceramente não encontrei saída e chorei, pelos moleques, pelas vítimas, pela mãe que só queria curtir um fim de semana de Rock in Rio com o filho cadeirante e por tudo isso que a gente vem fazendo dar errado.

Mais aqui, nesta triste matéria d’O Globo.

p.s.: Um policial conseguiu agarrar um menininho com pernas curtas sob o olhar de uma vítima apavorada com um bebê de colo, de onde tirei essa foto para acompanhar depois.

copacabana

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