Você leitora,

Tenta lembrar o caminho que te trouxe até aqui. Repassa os planos, a forma de pensar, sua liberdade, suas escolhas, a conveniência das decisões, as limitações.

Já que neste blog a gente fala de externalidades, vou contar que nesta semana revisitei a minha vida em contraste com as lentes de um mundo mais duro. Porque uma coisa é a dureza-personagem, em distância objetiva, mas quando ela senta todo dia do seu lado, é inevitável comparar caminhos que trouxeram ao mesmo lugar.

Naquele dia a faculdade estava especialmente modorrenta e ainda marcamos horário noturno para discutirmos uns textos. Desde o primeiro dia lembro dela com o cabelão escovado batendo embaixo da cintura ou preso em um caracol gigante, camadas de maquiagem e olhos marcados de kajal. Um mês e meio depois, ainda parecia uma adolescente em primeiro dia de aula. Não lembro bem como saímos dos papers e .ppts para a vida real, mas tinha a ver com a menininha que vi na tela do seu computador.

“É a minha filha”, falou rindo, com um olhar meio ‘quem mais seria?’.

A pequena fica com a avó na terra natal enquanto ela passa um ano estudando em Londres. A garotinha é fruto de um casamento arranjado na adolescência porque o pai teve problemas de saúde e queria encaminhar a filha antes de morrer. Poderia ter escolhido não se casar? Não.

Nesse ponto abri um parêntese para deixá-la mais confortável, fosse o caso. Disse que não conseguia mais ter uma opinião generalizada sobre casamentos arranjados depois que conversei com várias mulheres que até preferiam. Ela não preferia. Só queria continuar os estudos, mas acabou entrando em um casamento tão violento e abusivo que as visitas ao hospital eram constantes. E vários anos se passaram assim, porque não era uma esposa produtiva na relação (sim, nesses termos).

Me falou mais da vida nesse distante Século 21 que agora se chocava com o meu. De um mundo onde abusos e espancamentos domésticos são temas comuns de conversas entre amigos. Onde esposas precisam de permissão expressa do marido para trabalharem. Onde a vida de uma mulher só é vista como digna dentro do casamento. Onde divorciadas sequer conseguem alugar uma casa por questões socioculturais e dificilmente vão se casar de novo porque não são mais puras.

Foi neste mundo longínquo que ela pediu divórcio enquanto estava grávida para se reinventar como exemplo para a filha. Foi morar com a mãe e irmãos, arrumou emprego em uma ONG que apoia mulheres e seguiu seus estudos – já está no segundo mestrado.

As feições ganharam traços infantis quando voltamos aos livros e falamos do seu futuro doutorado.

p.s.: hoje a notícia dos livros feministas espalhados no metrô de Londres invadiu minha timeline, mas a minha história favorita da semana é essa aqui =)

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