Para que ano fomos, Doc Brown?

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A tal mini-praça, o tal templo, a tal mulher de xale.

O Nepal vai bem, mas não esse que você está pensando.

Em algum momento criamos a imagem de um país tranquilíssimo nas montanhas encrustadas de monastérios budistas. Pois 80% da população é hindu, e considerando a capital, tranquilidade é um conceito que não se aplica (ainda que o ritmo esteja longe de uma metrópole convencional).

Se Delhi era o choque desconcertante entre pobreza e luxo, Kathmandu é a convulsão temporal encarnada. Me esforcei para lembrar que estou em 2014 enquanto caminhava pelas empoeiradas ruelas que desembocam em mini-praças medievais. Nos pés dos templos, mulheres enroladas em xales passam o dia acocoradas junto às mercadorias expostas em lonas e sacos, os legumes e verduras pesados na balança de mão. Nos açougues, as carnes são exibidas em balcões que dão para a rua, o cheiro de sangue invadindo a calçada.

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Em harmonia com a arquitetura dos templos, as rústicas habitações de três a cinco andares nas sobrelojas são ornamentadas com janelas esculpidas em madeira. Perambular pelos pátios internos formados pelos prédios é ser transportado para uma outra época, onde a água do poço é bombeada manualmente e as crianças brincam na rua.

A noite chega e quase não há iluminação pública. O breu completo é quebrado por feixes esquálidos de luz que vazam das lojas equipadas com minigeradores ou um gato bem puxado. Muitos estabelecimentos só contam com luz de velas.

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Reasseguro estar no Século 21 enquanto caminho pelos bairros mais novos salpicados de shoppings e de estabelecimentos ocidentalizados. Na área dos mochileiros, rapazes de franja lambida da moda vendem jaquetas North Face para turistas despreparados. Guardas passam o dia empenhados em domar o trânsito nas ruas por onde passam carros e ônibus, e os rios tentam arrumar um espacinho para fluir entre a enorme quantidade de lixo.

Kathmandu parece um pássaro que precisa sair do ovo que já não comporta a vida lá de fora. Mas aí o pássaro não sabe viver de outro jeito (ou prefere esse mesmo) e vai ficando até quando der, a casca toda rachada deixando entrar o novo, para o bem ou para o mal.

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p.s.: sabe o Sri Lanka? Finalmente carreguei todos os álbuns aqui!

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4 Comentários on “Para que ano fomos, Doc Brown?”

  1. Isabela disse:

    Nossa trem! Como são percepções diferentes!
    Apesar das ruas empoeiradas, sem asfalto e ruelas “sinistras” eu achei o Nepal incrivelmente mais ocidental que a india(comparando a Calcuta).
    Lá sim eu vi esses “açougues” ao ar livre, pessoas vendendo. Não conheci a sua Índia tão moderna não. Tirando delhi e Goa.
    Nepal me impressionou por aceitarem muito mais tranquilamente a vestimenta ocidental, costumes. O fato de existirem bares nas ruas com bandas de rock. Era uma luxo pra quem na Índia de colocar o pé num restaurante com muito homem era fuzilada com o olhar! Quero muito ler toda sua percepção do Nepal pelo próximo mês!

    • deborazampier disse:

      Oi trem! Também senti o Nepal mais aberto que a Índia no quesito costumes, principalmente quanto ao papel da mulher (embora a Índia também tenha seus momentos barzinhos de rock). Na verdade, o que eu cito no post é a sensação de lapso temporal dentro da mesma cidade não só pela arquitetura (como existe em Barcelona por exemplo), mas pelo modo de vida que eles mantém aqui (poeirão quase sem asfalto,quase sem luz, quase sem saneamento, os vendedores no chão das pracinhas medievais). Só que aí também tem o trânsito enlouquecido, a quantidade surreal de lixo que só pode ser dos tempos atuais, os postes com os emarfanhados de gatos mais incríveis que já vi, KFC e Benneton. Dá um tilt! hehe

  2. Marília disse:

    Caraca, jose, impressionante! Essa é a realidade que os pacotes de turismo não vendem! e nem mostram! Quero saber qual sua sensação e percepção de uma sociedade hindu.

    • deborazampier disse:

      Oi Jo! Então, o hinduísmo é uma religião interessante porque não tem muita regra, cada um segue do jeito que acha. Tem os seus milhões de deuses, ritos e crenças, então até em um mesmo país pode ter muitas vertentes e fica difícil traçar um panorama. Aqui no Nepal, por exemplo, muitos hindus idolatram deuses budistas e vice-versa, e até dividem templos. O que achei interessante foi saber dessa maioria autodeclarada hindu, porque sempre achei que fossem mais budistas. E acho que essa calma toda que associamos ao Nepal deve estar no interior, por que Kathmandu é uma cidade bem agitada e barulhenta!


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