Sobre parar e continuar, parte dois

IMG_8122.JPG

Simpatizo com o protagonista real de Na Natureza Selvagem, mas nunca consegui decidir se Christopher McCandless foi um corajoso inspirador ou um inconsequente teimoso. Me pergunto se em algum momento ele poderia ter reconsiderado os termos da jornada sem precisar morrer sozinho no meio do nada, justamente quando tinha tantas coisas para dividir. E desde que assisti ao filme, me pergunto em que momento persistência e obstinação deixam de ser adjetivos para se virarem contra o portador.

Como falei outro dia, meu corpo andava meio estressado com a estrada, e com razão. Nunca tratei esse ano como férias, e tirando uns dias aqui e ali, sempre viajei rápida e intensamente. Cortei radicalmente as carnes logo no início e ainda pulava refeições com mais freqüência que devia, enquanto o esforço físico multiplicou. Perdi 10 quilos, fiquei anêmica, perdi metade do cabelo. Lembro quando li A Revolução dos Bichos durante uma nevasca no Nepal e achei tão estúpido o cavalo Sansão, que trabalhava o dobro com metade da ração em nome do ideal coletivo. A equação podia até soar desequilibrada para cavalos comunistas, mas comigo, veja bem, tudo certo.

A picada infeccionada no Camboja levei um mês para tratar. No episódio que engatilhou a situação atual, me perdi pela trilha do monte chinês Huangshan e subi e desci mais de mil metros em apenas um dia, trajeto de 20 quilômetros que o guia classifica como “slightly insane”. Já doente, continuei viajando, pegando trem lotado, chuva, sol forte. Como maior interessada na minha própria saúde, juro que achei normal, sempre aguentei tudo. Aí veio aquela sinusite, e depois de duas semanas de molho compulsório, as coisas finalmente se encaminhavam para a retomada de uma viagem mais consciente e saudável, ufa.

Decidi sobre a Mongólia, escrevi o ultimo post, fui à Grande Muralha. E umas coisas estranhas apareceram. Os olhos doloridos e abertos demais, a claridade machucando. O corpo foi perdendo a velocidade e começou a pulsar devagar, acompanhando a câmera lenta meio deformada das coisas e pessoas ao redor. Com as mãos geladas, vieram calafrios e sensações de desmaio, parecia que ia entrar em choque. Uma ideia fixa de que ia morrer sozinha em Pequim.

Três dias letárgicos depois, já com exames em ordem na mão, o médico disse que devo ter me intoxicado com o antibiótico, provavelmente com a participação da estafa de 10 meses na estrada associada à debilidade com a sinusite que passou.

– Mas doutor, eu estava super empolgada com o próximo destino, queria muito continuar.
– O diabético pode gostar muito de doce, mas nem por isso pode comer como quiser.

Então decidi pegar um vôo para a França, porque tudo isso aconteceu na mesma época em que mãe e irmã estariam de férias por aqui.

Se existiu algum momento em que poderia mudar alguma coisa, justamente quando tenho tantas coisas para dividir, me pareceu este.

p.s.: ainda recuperando da visão alterada, zumbidos nos ouvidos e dores nas costas, mas já bem melhor. Mais sobre efeitos colaterais de antibióticos aqui.