O que vi em Varanasi?

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Olhando pela janela do trem, a cidade fica para trás mas se mantém viva na memória dos últimos dias e dos próximos anos.

Talvez pela energia especial que os hindus depositem neste lugar, um dos mais sagrados da Índia. Segundo consta, Varanasi foi fundada pelo próprio deus Shiva, o destruidor. A ligação religiosa é lembrada pela presença chamativa dos sadhus, vagando pelas ruas com trajes laranjas e rostos decorados com pó de cinzas e tridentes vermelhos (símbolo de Shiva). Considerados homens santos, eles abdicaram dos bens materiais para impulsionar o desapego desse mundo e a conexão com o próximo*.

Em Varanasi, cidade auspiciosa para se morrer segundo o hinduismo, vi cadáveres em chamas na beira do Ganges, rijos como espantalhos quando cutucados para queimarem mais rápido. Vi corpos embalados em papel laminado, acomodados no chão em meio às cabras que comiam as flores fúnebres sem cerimônia, esperando a vez de ir para as fogueiras que nunca se apagam. Pela primeira vez vi as castas a olho nu, cada uma se consumindo no seu lugar. E os ossos grandes que não queimam, esses são jogados no rio. “Os peixes comem”, riu o homem. Aliás, ninguém ali chora, pois o homem disse que chorar atrapalha a alma que se foi. E achei que teria cheiro de churrasco, mas só cheira a madeira queimada mesmo.

Também foi em Varanasi que vi o Ganges como microcosmo de uma pequena cidade, funcionando manco de uma margem só. Lixo, vendedores que falam qualquer língua para empurrar mercadoria, pescadores, barqueiros, cachorros sarnentos, peregrinos se banhando, lavadores de roupa, cozinheiros, esgoto, artesãos, vacas encrencando com búfalos, cobras, cabras, corpos queimando, meninos empinando pipa, meninos tentando rebater um pedaço de pau na falta de uma bola, miseráveis reunindo cocô para usar como combustível, varais enormes, roupas recém lavadas estendidas no chão imundo, cerimônias religiosas tão ensaiadas que pareciam apenas coreografia.   

Em Varanasi assisti ao meu primeiro concerto de música indiana em uma salinha de teto baixo inversamente proporcional à virtuose dos instrumentistas. Só não entendi porque o festival era dedicado a George Harrison, mas o importante é que o beatle appeal funcionou com a turistada.

No caminho para a estação de trem, Raju, o motorista do rickshaw a pedaladas, disse ter muitos amigos. Não satisfeito com o “good” meio morno, sacou uma agendinha com depoimentos de dezenas de clientes satisfeitos desde 2005, um impressionante TripAdvisor pessoal improvisado. Mais impressionante ainda a quantidade de vezes que a expressão “only honest driver in town” aparecia nas páginas amareladas.

Em Varanasi me senti uma pequena peça do estranho quebra cabeça existencial, esperando a hora de me encaixar em algum lugar.

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* Para o documentário Sadhu, o diretor Gaël Métroz acompanhou a saga tortuosa de um peregrino por vários meses, com cenas em Varanasi. Dois minutos de trailer aqui.  

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